Ainda é cedo para avaliar o estrago das delações nos candidatos de 2018

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Paulo Câmara pode sobreviver às denúncias dos delatores se conseguir sucesso no combate à criminalidade urbana
Com a democratização da propina, distribuída de forma ampla, geral e irrestrita praticamente a todos os partidos e a quase dois mil candidatos, dos quais 138 foram eleitos para a Câmara dos Deputados, e outros tantos para o Senado, Assembleias Legislativas e governos estaduais – só com o patrocínio da JBS -, a mais de um ano das eleições do próximo ano ainda não se pode prever que estrago o recebimento da bufunfa pode ter causado aos candidatos ao pleito de 2018. Isso vale para os candidatos a todos os cargos que estarão em disputa – presidente da República, governadores, senadores, e deputados federais e estaduais.

Aqui em Pernambuco, por exemplo, à exceção do senador Armando Monteiro Neto (PTB), todos os potenciais candidatos aos cargos que estarão em disputa mereceram algum tipo de citação nas delações tanto da Odebrecht quanto da JBS. Mas diante da impossibilidade de se verificar o estrago e como eventualmente a citação será politicamente explorada na campanha, essa vantagem do senador é muito relativa. Até porque há outros fatores que podem também reduzir o impacto de ter aparecido em uma ou outra lista de delatores, como por exemplo, o sucesso da gestão ou na administração do patrimônio político de cada candidato.

O governador Paulo Câmara (PSB), cujo nome já apareceu junto com o prefeito Geraldo Julio em menções a irregularidades nas obras de Suape, da Arena de Pernambuco e do presídio de Itaquitinga, é citado agora pelo delator Ricardo Suad, da JBS, como beneficiário da propina que o frigorífico distribuiu no Estado, mas não de forma muito clara. O próprio delator fala em pedido de ajuda para a campanha do governador, que teria sido feito não por ele, mas pelo prefeito do Recife. E o pedido de ajuda, dentro do espectro geral das condições de financiamento das campanhas políticas no Brasil, não pode ser considerado, a priori, um crime.

Principalmente se o dinheiro recebido – a título de arrecadação para financiar a eleição – tenha sido efetivamente usado para custear a campanha. Essa ressalva se faz necessário porque há casos – e não são poucos – do dinheiro arrecadado ter passado ao largo das campanhas e caído diretamente na conta corrente dos candidatos. Em sua delação, Joesley Batista nominou diretamente o presidente Michel Temer, que teria embolsado R$ 1 milhão dos recursos que a JBS destinou à sua campanha de vice-presidente e para os demais candidatos do PMDB.

Mas voltando a Pernambuco, e ao governador Paulo Câmara, considerando a forma ainda enviesada como o seu nome aparece nas delações, a questão da origem dos recursos para o financiamento da sua campanha não deverá sobrepor-se, por exemplo, à questão das segurança pública, quesito onde sua administração vem obtendo as piores notas. Se o secretário Ângelo Gioia conseguir um maior sucesso na redução da violência urbana, como assaltos a ônibus e os crimes contra o patrimônio, seguramente ele ajudará o governador a se posicionar melhor na foto que vai usar nas suas peças para a campanha política do próximo ano.

Enquanto pelo menos no mês de abril esses dois crimes tenham refluído em Pernambuco, eles são dor de cabeça crescente em outros estados, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e, pasmém, no Distrito Federal – para citar apenas algumas unidades da Federação onde a onda de violência urbana cresce assustadoramente. Outros crimes que ganham destaque na mídia, como queima de arquivo entre quadrilhas, que representam mais de 80% dos homicídios em Pernambuco, ou estupro e violência doméstica, que em sua maioria também acontecem dentro de casa, são de prevenção mais difícil e a população sabe separar o joio do trigo ao fazer a avaliação da responsabilidade do governador em cada caso.

Os ministros Mendonça Filho e Bruno Araújo: capital político aumentado com ações do governo federal em Pernambuco, mas risco de Temer deixar a Presidência
Por motivos semelhantes, ainda é cedo para anular ou mesmo diminuir as chances dos ministros das Cidades Bruno Araújo (PSDB) e da Educação Mendonça Filho (DEM) quanto às suas postulações para a disputa de um cargo majoritário no próximo ano. Se Bruno Araújo está citado na lista da Odebrecht e apareceu de novo como beneficiário de uma propina de R$ 200 mil em dinheiro vivo para a sua campanha de deputado federal, ele tem a seu favor – que pode acumular como capital político – as ações do seu Ministério em Pernambuco, que lhe dão visibilidade com obras de saneamento para prefeituras, entrega de unidades residenciais do Programa Minha Casa, Minha Vida e o próximo lançamento, se vier a ocorrer, do cartão-reforma.

O ministro Mendonça Filho, como o senador Armando Monteio Neto, tem a seu favor o fato de não ter sido citado em nenhuma das delações feitas até hoje no âmbito da Operação Lava Jato. Além disso, ele engorda seu patrimônio político no Estado ao destinar recursos para a educação em Pernambuco, não somente para pagamento de professores como para a construção de novas unidades de escolas técnicas do governo federal. Seu maior risco, como o de Bruno Araújo, é a interrupção das ações do governo federal em Pernambuco se o presidente Temer vier efetivamente ser defenestrado de sua cadeira no Palácio do Planalto.

Se tivesse pretensões de disputar o governo do Estado no próximo ano, o que a essa altura parece estar fora de cogitação, dentre os candidatos à cadeira do governador Paulo Câmara provavelmente o senador Fernando Bezerra Coelho seria o que teria mais dificuldade de viabilizar sua candidatura. Entre os políticos de Pernambuco, o senador é o mais citado nas delações da Lava Jato e já está sendo investigado pelo Supremo Tribunal Federal. Além disso, ele está em rota de colisão com o PSB, ao insistir no apoio ao presidente Temer, inclusive com a manutenção do seu filho Fernando no cargo de ministro das Minas e Energia, mesmo depois da decisão da executiva nacional do partido, adotada no sábado (20), de romper com o governo federal.

Senador Fernando Bezerra Coelho: mais citado e menores chances de ser candidato
Como os outros citados nas delações, Fernando Bezerra tem negado com veemência o recebimento irregular de recurso de qualquer origem para sua campanha de senador. E por enquanto, as delações ainda padecem da apresentação de provas para serem materializadas. A par disso, engrossam a cada dia as críticas à Força-Tarefa da Operação Lava Jato quanto aos métodos que tem utilizado para conseguir revelações de seus delatores, assim como a divulgação do conteúdo das delações sem que os acusados possam se defender e até mesmo a liberação de delatores que deveriam pelos crimes confessados ser encaminhados direto para a cadeia. Assim os delatados acabam sendo julgados e condenados pelo tribunal de exceção da imprensa e da opinião pública, onde se escora a Lava Jato, com enorme risco de estar cometendo injustiça com um ou com outro, antes mesmo de um julgamento pela Judiciário. Num misto de culpados e inocentes, será nessas condições, quase em pé de igualdade, que os candidatos citados na Lava Jato chegarão às eleições do próximo ano.

Geraldo Seabra Filho
Editor do Correio do Grande Recife
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