Globo detona Temer para manter o País sob controle

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Quem trabalhou ou trabalha no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, conhece muito bem a gravidade da situação e do interesse da família de Roberto Marinho, dona das Organizações Globo, quando o editorial sai das entranhas e é catapultado para a primeira página do jornal. Quando isso ocorre, invariavelmente seu texto traduz, sem a menor cerimônia, um ultimato a quem é dirigido.

Neste sábado (21), o jornal não fugiu à regra. Sob o título “A renúncia do presidente“, antecipado pelo site do Globo na tarde de ontem, o editorial do jornal ejeta o presidente Michel Temer (PMDB) de sua cadeira e deixa claro que pretende manter o País sob o controle da família Marinho ao indicar o caminho a ser seguido para a sua substituição, com uma conveniente defesa da Constituição:

“O caminho pela frente não será fácil. Mas, se há um consolo, é que a Constituição cidadã de 1988 tem o roteiro para percorrê-lo. O Brasil deve se manter integralmente fiel a ela, sem inovações ou atalhos, e enfrentar a realidade sem ilusões vãs. E, passo a passo, chegar ao futuro de bem-estar que toda a nação deseja”, aponta o editorial do jornal, que devido ao seu tamanho, ocupando metade do espaço da editoria de Opinião, ganhou apenas chamada na primeira página da edição de hoje.

Ora, esse caminho, como bem sabemos, é o da eleição indireta do novo presidente para concluir o saldo do mandato presidencial iniciado pela presidenta Dilma Rousseff (PT), em 1º de janeiro de 2015. Significa que o sucessor de Temer seria eleito pelo “voto ostensivo” dos deputados e senadores que compõem o colégio eleitoral. Voto ostensivo é o contrário do voto secreto, que pode ser controlado e televisado pelas câmeras da Globo ao vivo para todo o País.

A eleição indireta agrada a Globo. Conhecedora do currículo e, mais que isso, do prontuário da maioria dos deputados e senadores com assento nas duas casas do Congresso Nacional, a Globo tem todas as condições não apenas de monitorar, mas até mesmo de ditar o voto a cada parlamentar com rabo preso nos porões da corrupção. É dessa gente que a família Marinho sempre se valeu e não seria agora que faria diferente.

Uma reforma constitucional para alterar a forma de eleição do presidente indicado para concluir o resto do mandato, nem pensar. Isso fugiria ao controle da Globo porque incluiria o inoportuno voto direto, com a não menos inoportuna participação popular. E a exemplo do ex-presidente João Batista Figueiredo, que dizia preferir o cheiro dos seus cavalos ao cheiro do povo, a Globo também acha que povo fede. Principalmente quando está diante de uma urna.

Todo mundo sabe que a Globo, que sempre apoiou Temer, como confessa no editorial do seu jornal, decidiu detonar o presidente quando o viu sem condições de continuar no comando das reformas trabalhista e da Previdência que, como líder maior dos interesses do capital no Brasil, ela quer ver aprovada a qualquer custo. O presidente, portanto, em sua situação atual, tornou-se apenas um incômodo a ser removido. Por isso, e não vai aqui nenhuma defesa de Temer, ele passou a ser desconstruído com repetidas reportagens em todos os telejornais da rede, seja no canal aberto ou fechado, e nas edições locais ou nacionais.

Meirelles: o candidato ideal para prosseguir com as reformas trabalhista e da Previdência (Foto: Michel Filho/O Globo)
Com o desgaste de todas as lideranças políticas, tendo ou não envolvimento com a corrupção, ninguém duvide que a Globo já tem no bolso do colete o seu candidato ideal. Quem melhor veste o figurino é o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Idealizador, autor e condutor das reformas trabalhista e da Previdência, uma vez na cadeira presidencial, imagina a Globo, Meirelles teria condições de desencalhar os projetos que ficaram paralisados desde que a delação da JBS veio à tona. E sem intermediários.

Meirelles pode não resolver nenhum problema que aflige o País, mas certamente resolveria todos os problemas que incomodam a Globo e principalmente à banca, que ela tão bem representa. Na principal reportagem da editoria de Economia em sua edição deste sábado, o Globo dá a pista para fazer de Meirelles o próximo presidente:

“Economistas consideram essencial a manutenção da equipe econômica em um eventual novo governo, para dar continuidade ao trabalho, com foco na aprovação das reformas. Meireles e Ilan são considerados os fiadores da política econômica. Na crise desencadeada pela delação premiada do dono da JBS, Joesley Batista, o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central mantiveram-se na linha de frente e se armaram para reparar os estragos causados no mercado.”

Todo mundo sabe que desde que deixou a presidência do Banco Central, no final do governo Lula, Meirelles abortou seu sonho de infância de governar Goiás, onde nasceu, e passou a sonhar com o Palácio do Planalto. Com tamanha unanimidade entre os “economistas” cujos nomes a reportagem não declina, esta seria a maior oportunidade que Meirelles teria para sentar na cadeira de Temer e de lá comandar o desmonte da legislação trabalhista e da Previdência Social. Era só para isso que Temer servia, e como perdeu a serventia, não serve mais.

Geraldo Seabra Filho
Editor do Correio do Grande Recife
[email protected]

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