Governos tucanos repassaram R$10 milhões ao candidato do PSDB em SP

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Doria e o governador Geraldo Alckmin (dir.) em evento que homologou candidatura à prefeitura de SP
Doria e o governador Geraldo Alckmin (dir.) em evento que homologou candidatura à prefeitura de SP
Governos tucanos repassaram ao menos R$ 10,1 milhões a empresas do candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, João Doria, entre 2010 e 2016. A reportagem é do Portal UOL.

Foram pesquisados contratos de empresas de Doria em dez Estados que tiveram governos do PSDB no período. Em quatro deles, houve repasses: Goiás, Mato Grosso, Paraná e São Paulo.

O valor foi levantado a partir de pesquisa nos portais de transparência dos Estados. Pagamentos feitos pelo Estado de São Paulo, governado por Geraldo Alckmin (PSDB), foram apurados pelo jornal “Folha de S.Paulo” por meio da Lei de Acesso à Informação.

Os valores de todos os repasses foram corrigidos pelo IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado).

Doria é dono de oito empresas no Brasil e tem um patrimônio declarado à Justiça eleitoral de R$ 180 milhões. Ele é o maior doador da própria campanha, com um repasse pessoal de R$ 2,9 milhões, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Doria é filiado ao PSDB desde 2001.

Em sua campanha, Doria enfatiza o discurso de não ser um “político”, mas um gestor. É também um crítico do tamanho do Estado.

Advogado diz que é tudo legal
Segundo seu advogado, Nelson Wilians, a contratação das empresas do Grupo Doria por governos de colegas de partido é legal e cumpre todos os requisitos previstos em lei.

Wilians afirma que os acordos foram negociados pela equipe comercial e jurídica do Grupo Doria, e não têm qualquer relação com a filiação de João Doria ao PSDB.

“[A filiação] não tem peso algum e pelo contrário. Um dos princípios mais importantes que regem a administração pública é o princípio da impessoalidade”, diz Wilians. “Não existe nenhuma relação de ajuda entre Grupo Doria e governos, seja de qualquer partido”.

Disse ainda que “não há conflito de interesses legal, moral ou ético, vez que todas as contratações obedeceram às regras legais e dentro dos padrões de mercado, tanto que nunca foram levantadas essas questões por qualquer órgão de controle até o mesmo ser candidato à Prefeitura Municipal de São Paulo”.

O UOL questionou quanto o Grupo Doria recebeu de empresas estatais ou governos estaduais no período, mas o advogado afirma que o grupo não divulga faturamento e contratos.

Afirma que 88% dos clientes do grupo são entidades privadas. No meio público, segundo Wilians, o Grupo Doria firmou contratos com “vários estados (AM, BA, PE, GO, SC, RN) e municípios de diversos partidos, entre eles PT, PSDB, PSB, PSD, PP”.

Paraná pagou R$ 2,4 milhões

No Paraná, governado por Beto Richa (PSDB) desde 2011, o governo e empresas controladas pelo Estado repassaram R$ 2,4 milhões no total.

Uma das empresas, a Copel (Companhia Paranaense de Energia), fez dois pagamentos à Doria Marketing e Eventos, em 2013 e 2015. Juntos, eles somam quase R$ 1,4 milhão. Na prestação de contas, é dito que o dinheiro foi destinado a “exposições e eventos”.

Por meio de nota, a Copel afirmou que os pagamentos se referem ao “patrocínio e participação no 5º Fórum Mundial de Meio Ambiente, em 2013, e no 6º Fórum Mundial de Meio Ambiente, em 2015, ambos realizados em Foz do Iguaçu, no Paraná”.

A Copel diz que: “Foram ações de caráter estritamente técnico, dada a relevância do evento, a relação do tema com o setor de atuação da empresa e os eventos serem realizados em município estratégico na área de concessão da Companhia.”

Outra estatal paranaense, a Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná), também fez pagamentos à mesma empresa de Doria. Entre 2013 e 2015, a companhia fez quatro repasses à Doria Marketing e Eventos, que somam R$ 960 mil.

Segundo a Sanepar, os repasses também foram referentes ao patrocínio a edições do Fórum Mundial do Meio Ambiente, além de um “evento sobre gestão corporativa e governança do Grupo Lide”, que aconteceu em 2014.

O Lide, do Grupo Doria, promove o Fórum Mundial de Meio Ambiente. Segundo o site do evento, ele “reúne lideranças empresariais, políticos, pesquisadores, organizações socioambientais e imprensa para a troca de experiências sobre gestão econômica, ambiental e social”.

A Sanepar afirma que “todas as ações são de caráter técnico, considerando-se a relevância dos eventos e proporcionaram ampla divulgação da Sanepar para o público participante”.

Em junho deste ano, quando Doria já era pré-candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo, o governo do Paraná pagou o valor líquido de R$ 63 mil à Doria Editora para veicular propaganda na “Revista Fórum-Especial Estados”, segundo a Secretaria de Estado da Comunicação Social (Secs) do Estado, responsável pelo pagamento.

A Secs diz que “a veiculação da publicidade do Estado do Paraná segue critérios eminentemente técnicos, indicados pelas agências contratadas e validado” pela secretaria.

Goiás repassou R$ 2,7 milhões

Em Goiás, Estado governado por Marconi Perillo (PSDB) desde 2011, o governo utilizou recursos do Funproduzir (Fundo de Desenvolvimento de Atividades Industriais) para pagar mais de R$ 2,7 milhões, entre 2011 e 2015, à empresa Doria Associados Consultoria. De acordo com o portal da transparência do Estado de Goiás, a justificativa para os repasses foi o pagamento para a “realização de eventos, inclusive Congressos e Conferências”.

O UOL tentou contato telefônico com a assessoria do governo na quarta-feira (28), sem sucesso, e enviou um e-mail para o órgão questionando sobre os pagamentos. Nesta quinta-feira (29), a assessoria informou que enviaria nota, mas não o fez até a publicação desta reportagem.

Mato Grosso pagou por evento em NY
Em Mato Grosso, governado por Pedro Taques (eleito pelo PDT, mas que passou para o PSDB), o Fundo de Desenvolvimento Industrial e Comercial pagou R$ 498 mil à Doria Eventos Internacionais em 7 de março deste ano, quando João Doria já disputava as prévias para ser o candidato do PSDB na cidade de São Paulo.

A prestação de contas diz que o pagamento foi para a compra de uma cota no evento Lide Business Meeting, em Nova York (EUA), “no dia 19 de maio de 2016 […], momento em que serão reunidas as principais lideranças empresariais e representante de fundos de investimentos, instituições financeiras”.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o governo do Mato Grosso afirmou que o repasse foi legal e que a contratação faz parte de uma estratégia para buscar investimentos internacionais. “A participação no evento em 2015 rendeu ao Estado a garantia de R$ 1 bilhão em investimentos estrangeiros. Sendo assim, a relação é institucional, e não partidária”, afirma.

“É importante frisar que o governo de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec), participa do Lide Business Meeting desde 2015, quando o governador Pedro Taques não fazia parte do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Taques se filiou ao PSDB no dia 29 de agosto de 2015”, diz a assessoria do governo.

Afirma ainda que “as tratativas para a contratação se iniciaram em dezembro de 2015, sendo que a autorização para contratação se deu em 6 de janeiro de 2016, momento em que ainda não havia qualquer definição sobre candidaturas em São Paulo do partido citado”.

O advogado de Doria, Nelson Wilians, ratificou que o contrato com o governo de Mato Grosso começou a ser negociado muito antes do lançamento da candidatura do empresário à prefeitura. Confirmou ainda que o evento em Nova York fez parte da estratégia do governo para captação de investimentos.

“O evento do qual o governo do Mato Grosso participou em Nova York, em maio de 2016, fez parte da agenda que constavam outras atividades, como encontro de investidores e visita a frigoríficos”, afirmou.

Em São Paulo, governado desde 2011 por Geraldo Alckmin (PSDB), padrinho político de Doria, empresas do candidato a prefeito receberam R$ 4,5 milhões entre 2010 e 2015, segundo reportagem da “Folha de S.Paulo”.

A Desenvolve SP, agência de desenvolvimento do governo, patrocinou eventos em valores que somam R$ 2,7 milhões. O governo do Estado também fez anúncios nas revistas da Editora Doria que custaram R$ 1,8 milhão entre 2014 e 2015, segundo a “Folha”.

Governo de SP nega privilégios
Procurado pelo UOL, o governo de São Paulo afirma que não tem contratos com empresas do Grupo Doria. Recursos paulistas que chegaram à Doria Editora foram repassados por agências de publicidade contratadas pelo Estado para planejar a propaganda governamental. Dentro desse planejamento, as agências distribuem tarefas e pagamentos visando a “a alcançar diretamente o público-alvo para cada campanha, garantindo o bom uso do recurso público”.

Já a agência de fomento Desenvolve SP, ligada ao governo, declarou que contratou serviços de empresas de João Doria para divulgar suas linhas de créditos em eventos empresariais. A agência informou que, de 2009 a 2016, patrocinou 329 eventos. O Grupo Doria foi contratado pela Desenvolve SP em 32 deles.

Tanto o governo quando a Desenvolve SP negaram qualquer relação entre a contratação do Grupo Doria e sua filiação partidária. “Filiação partidária não foi, é ou será o critério que condiciona a escolha de veículos de comunicação que vão divulgar as campanhas publicitárias da administração paulista”, declarou o governo.

O advogado de Doria, Nelson Wilians, afirmou que os contratos firmados com o governo de São Paulo não tiveram influência política. Segundo ele, seguiram uma estratégia comum de publicidade.

“É prática o investimento em mídias tanto impressas como digitais e eletrônicas. O Grupo Doria não recebeu investimento exclusivo e sim fez parte das campanhas, não apenas do governo de São Paulo, mas de diversos governos de variados partidos”, afirmou.

Governo petista também contrata Doria
Ainda de acordo com a “Folha”, empresas de Doria também receberam recursos do governo federal durante os mandatos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, ambos do PT. Desde 2005, foram cerca de R$ 6 milhões.

Esse valor está dividido em pagamentos feitos por estatais como Correios (R$ 1,8 milhão), Apex (R$ 2,6 milhões) e Petrobras (R$ 896 mil) feitos a empresas de Doria. Inclui também repasses de R$ 547 mil feitos pelo Ministério do Esporte ao grupo do candidato a prefeito. Os pagamentos estão relacionados patrocínios e apoios a eventos realizados por Doria.

Tucano diz que empresas fazem “lobby”
A candidatura de João Doria à prefeitura gerou críticas dentro do PSDB.

O ex-governador de São Paulo, Alberto Goldman (PSDB), publicou um texto em seu site neste mês fazendo críticas a Doria, afirmando que suas empresas estabelecem “relações entre empresários e agentes políticos”.

“Como empresas de eventos, não produzem qualquer bem ou serviço diretamente, apenas estabelecem e ampliam relações entre empresários e agentes públicos (deputados, senadores, secretários, ministros, governadores), atividade lícita que se chama de lobby”, afirmou Goldman.

Ricardo Marchesan, Vinicius Konchinski e Leandro Prazeres
Do UOL, em São Paulo e Brasília

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