Grécia dá calote no FMI e pode deixar a Zona do Euro

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A Grécia não realizou o pagamento de uma parcela de 1,6 bilhão de euros (R$ 5,6 bilhões) de um empréstimo concedido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) até o fim do prazo estabelecido, marcado para a 1h da manhã de quarta feira do horário local (0h em Bruxelas e 19h de Brasília).

O “calote técnico” grego é inédito. Até hoje, nenhuma das economias consideradas desenvolvidas havia deixado de pagar um empréstimo concedido pelo FMI.
Atualmente, a Grécia deve um total de 271 bilhões de euros. A origem da atual crise se deu há dez anos, quando foi revelado por autoridades da Europa que o país havia maquiado suas contas ao longo de vários anos para conseguir entrar na zona do euro.

A Grécia ficou endividada e sucumbiu diante da crise financeira de 2008, o que exigiu dois pacotes bilionários para resgatar o país. Em troca, foi aplicado um severo plano de corte de gastos públicos.

Três anos após estas medidas de austeridade serem aplicadas, o recém-eleito governo de esquerda do premiê Alexis Tsipras, do partido Syriza, voltou a negociar com a União Europeia, o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Central Europeu, sem conseguir chegar a um acordo.

Os credores internacionais exigiam do governo novos cortes de gastos e de aposentadorias, enquanto Tsipras propunha aumentar a arrecadação via elevação de impostos sobre empresas e fortunas.

Campanha online e protestos

Diante deste impasse, o britânico Thom Feeney chegou até mesmo a lançar uma campanha online para que todos os europeus ajudassem a Grécia a pagar sua dívida.

Na prática, isso exigiria que cada europeu, com exceção dos gregos, doasse 3,25 euros para cobrir o pagamento previsto para esta terça. Para cobrir toda a dívida, seriam necessários 550 euros de cada cidadão do continente.

A campanha conseguiu até o momento 270 mil euros de 1,7 mil doadores, e sua página chegou a sair do ar por conta do alto número de acessos, segundo o site IndieGogo.

Na segunda-feira à noite, a Comissão Europeia ofereceu um acordo ligeiramente modificado, rejeitado pelo governo grego.

Como resposta, a Grécia pediu um novo acordo de dois anos sob o Mecanismo de Estabilidade Europeia, que ainda não existia quando a Grécia recebeu empréstimos em 2010 e 2012.

Neste novo acordo, o país receberia 29,1 bilhões de euros de países do bloco para cobrir os pagamentos de suas dívidas e, assim, ajudar a manter a estabilidade da moeda.

Ministros da Fazenda de países europeus discutiram a proposta em uma teleconferência na noite desta terça-feira, mas não chegaram a uma decisão.

Consulta popular

Agora, um referendo será realizado no próximo domingo, dia 5 de julho. Os gregos votarão se aceitam ou não as novas medidas de austeridade impostas por credores internacionais.

A votação foi alvo de protestos no país. Nesta terça-feira, milhares de manifestantes pró-União Europeia se reuniram do lado de fora do Parlamento grego, na capital Atenas, para fazer campanha pelo “sim”. Ontem, foi a vez de cidadãos se manifestarem pelo “não”.

O primeiro-ministro Alexis Tsipras apoia o “não” na consulta popular, que é vista por muitos líderes europeus como um referendo sobre a permanência do país na zona do euro.

Enquanto isso, a economia grega segue paralisada, o desemprego cresce e muitos cidadãos do país estão ameaçados de pobreza.

Uma vitória do “sim” no referendo de domingo criaria um problema político para o governo grego, e não apenas pelo seu apoio público ao “não”.

Tsipras e o Syriza venceram as eleições com a promessa de reverter as medidas de austeridade impostas à Grécia desde 2010, quando o país começou a receber fundos emergenciais da UE e do FMI.

Mas, pelo menos de acordo com as pesquisas, a maioria dos gregos poderá votar contra o governo – algumas medições falam em 65% dos gregos apoiando o “sim” -, com medo de um aprofundamento da crise.

O problema é que a vitória do “sim” poderia provocar a renúncia de Tsipras e criar um problema político.

Esse cenário criaria um longo período de incerteza e levaria à saída da Grécia da zona do euro e um retorno à sua antiga moeda, o dracma. Isso provavelmente também resultaria no Banco Central Europeu fechando as linhas de crédito para os bancos gregos.

Tal medida levaria o governo grego a impor controles ainda maiores às contas bancárias – na segunda-feira, Atenas anunciou o fechamento dos bancos por uma semana e restringiu retiradas.

Isso pode transtornar ainda mais a economia da Grécia, que entre 2008 e 2013 sofreu um encolhimento de 25% do PIB.

Restaurado, o dracma possivelmente perderia em valor, o que resultaria em inflação e aumento nos preços de produtos importados. Sem falar que disputas judiciais surgiriam em volta dos contratos previamente assinados em euros.

Uma saída negociada do euro seria menos conturbada. Mas ainda teria correntistas gregos vendo seu dinheiro convertido de euros para dracmas.

Um problema criado pelo voto no “não”, em qualquer cenário, é o que fazer com a presença grega na União Europeia.

Não existe um mecanismo formal de expulsão do bloco e a Grécia não parece querer sair. Mas os outros membros terão de avaliar se querem o país no bloco depois de desistirem de mantê-lo na zona do euro.

É possível que tenham de ser feitas mudanças nas regras da UE, sempre um processo lento e complicado, que pode envolver a realização de plebiscitos em alguns países.

O certo é que todos esses caminhos, seja qual for o escolhido pela Grécia, serão longos – e vai demorar até que a crise fique para trás.

BBC

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