A possibilidade de acessar exames, diagnósticos e históricos médicos em diferentes estados por meio de um único sistema ainda é um desafio no Brasil. Esse cenário está no centro de uma agenda internacional que leva executivos e gestores brasileiros a Barcelona, entre os dias 13 e 17, para uma imersão focada em interoperabilidade de dados em saúde.
A proposta é observar, na prática, como a integração entre sistemas pode melhorar a gestão, reduzir falhas e garantir continuidade no atendimento ao paciente. Participam da iniciativa representantes de empresas como Vale e Fundação Zerrenner, ligada à Ambev, além de integrantes do Ministério da Saúde, do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde e do Conselho Nacional de Saúde.
O programa é liderado pelo Movimento Empresarial pela Saúde, iniciativa do Serviço Social da Indústria e da Confederação Nacional da Indústria, com articulação do Conselho Nacional do SESI e correalização do Instituto Euvaldo Lodi.
Segundo Hans Dohmann, gestor de saúde, o Brasil produz grandes volumes de informações clínicas, mas apenas uma fração desse material é utilizada para orientar decisões médicas e de políticas públicas. Saiba mais clicando aqui.
Interoperabilidade no centro da agenda
A chamada interoperabilidade de dados, apesar do termo técnico, trata de um conceito direto. É a capacidade de diferentes sistemas de saúde se comunicarem e compartilharem informações clínicas com segurança, padronização e eficiência.
Na prática, isso permite que o histórico de um paciente acompanhe seu atendimento, independentemente da instituição ou da região onde ele esteja. Exames já realizados deixam de ser repetidos sem necessidade, diagnósticos são mais rápidos e o cuidado tende a ser mais preciso.
A escolha da Espanha como destino da imersão não é aleatória. O modelo adotado na Catalunha é considerado um dos mais avançados do mundo nesse campo. O sistema começou a ser estruturado entre 2007 e 2009, com a criação da Història Clínica Compartida de Catalunya, que consolidou a troca de informações entre os serviços de saúde da região.
Com cerca de 8 milhões de habitantes, a comunidade autônoma conseguiu integrar toda a rede pública em um ambiente digital unificado. Dados do CatSalut, o serviço catalão de saúde, indicam que hoje profissionais conseguem acessar informações completas dos pacientes em diferentes pontos de atendimento, o que impacta diretamente a qualidade da assistência.
Impactos no atendimento
A integração de dados altera a rotina clínica. Médicos passam a ter acesso a exames anteriores, histórico de doenças e registros de atendimentos, mesmo que realizados em instituições distintas. Isso reduz custos, evita redundâncias e melhora a tomada de decisão.
O ganho também aparece na segurança do paciente. Com informações mais completas, diminui-se o risco de erros médicos e de prescrições inadequadas. O sistema, ao mesmo tempo, exige rigor em padrões de segurança e governança de dados, tema que também faz parte da programação da viagem.
No Brasil, iniciativas nessa direção avançam de forma gradual. A criação da Rede Nacional de Dados em Saúde, em 2020, marcou um passo importante. A plataforma já permite, por exemplo, o acesso ao histórico de vacinação pelo Conecte SUS. Ainda assim, a integração entre sistemas públicos e privados segue como um dos principais desafios.
Imersão e troca de experiências
A agenda em Barcelona inclui visitas técnicas a centros de excelência, indústrias e instituições acadêmicas. O objetivo é aprofundar o conhecimento sobre soluções tecnológicas e modelos de governança que viabilizam a circulação segura de dados clínicos.
A expectativa é que a experiência contribua para adaptar boas práticas ao contexto brasileiro, com foco na aproximação entre os sistemas público e privado.
Para o superintendente de Saúde do SESI, Emmanuel Lacerda, o momento é de transformar informação em resultado concreto. “O cenário mudou bastante nos últimos anos. Hoje, o desafio é conseguir conectar e usar essas informações de forma inteligente. Quando isso não acontece, conseguimos muita informação, mas pouca ação. A expectativa é que a experiência em Barcelona ajude a apontar caminhos para transformar esses dados em cuidados mais eficientes e em resultados concretos e seguros para o paciente”, afirma.
Durante a semana, a delegação também busca entender como diferentes atores, governo, empresas e instituições de saúde, se articulam em sistemas mais maduros de saúde digital.
O coordenador da delegação do Conselho Nacional do SESI em Barcelona, Warley Soares, destaca o papel estratégico da iniciativa. Segundo ele, “a experiência deve contribuir para fortalecer o papel do CN-SESI na construção de uma agenda nacional de saúde digital, articulada com o Departamento Nacional da instituição e os regionais, com foco em trabalhadores e empresas.”
Articulação institucional e desafios
Além do aprendizado técnico, a imersão reforça o diálogo entre diferentes setores envolvidos na formulação de políticas públicas de saúde. A presidente do Conselho Nacional de Saúde, Fernanda Magano, ressalta a importância dessa construção coletiva.
“Esta iniciativa tem valor justamente por criar um espaço de escuta, troca e construção entre diferentes atores que atuam na saúde. Em temas tão decisivos como a saúde digital, é fundamental que o debate não fique restrito à dimensão tecnológica, mas incorpore também o compromisso com o interesse público, com a participação social e com a qualidade do cuidado oferecido à população”, afirma.
A expectativa é que, a partir da experiência internacional, o Brasil avance na consolidação de um sistema mais integrado, capaz de transformar dados em decisões clínicas mais rápidas, seguras e eficientes.
Fonte: Agência de notícias da indústria
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