A redução dos embarques de diesel da Rússia começa a alterar o equilíbrio do mercado internacional de combustíveis. O país enfrenta dificuldades para manter a produção de derivados em algumas refinarias e decidiu priorizar o abastecimento interno. Com isso, compradores de diferentes regiões passaram a disputar cargas disponíveis em outros mercados.
O efeito chega ao Brasil, que utiliza importações para complementar a oferta nacional de diesel. Nos últimos anos, a Rússia ganhou espaço entre os fornecedores brasileiros, principalmente depois das mudanças no comércio internacional provocadas pela guerra na Ucrânia. Agora, a menor disponibilidade do produto russo aumenta a necessidade de buscar alternativas.
A situação russa combina ataques de drones contra refinarias, paralisações operacionais e maior demanda doméstica. O problema não está na produção de petróleo, mas na capacidade de transformar o óleo em combustíveis. A menor atividade das unidades de refino reduziu o volume disponível para exportação.
Dados da Kpler citados pela Reuters mostram a dimensão dessa mudança. Em 2025, a Rússia exportou uma média de 817 mil barris por dia de diesel e gasóleo. O volume caiu para aproximadamente 400 mil barris diários em junho. Nos dez primeiros dias de julho, chegou a cerca de 234 mil barris por dia.
Diante do cenário econômico mais complexo observado nos últimos anos, corporações de diversos segmentos têm reavaliado suas estratégias de alocação de capital. Conforme analisa o economista Paulo Narcélio Simões Amaral, essa conjuntura não indica um recuo nos aportes, mas sim uma reformulação nos parâmetros que estabelecem as prioridades de investimento.
Restrição russa afeta mercado internacional
O governo russo prorrogou as restrições às exportações de diesel até 31 de janeiro de 2027. A medida permite que produtores diretos retomem, a partir de setembro, algumas exportações de diesel, combustível marítimo e gasóleos.
A incerteza sobre a quantidade efetivamente disponível é um dos principais fatores de pressão. Mesmo sem importar derivados russos por via marítima desde 2023, a Europa sente os efeitos da mudança. Isso ocorre porque países como Brasil e Turquia precisam procurar cargas alternativas quando recebem menos produto da Rússia.
A consequência é uma disputa maior por combustíveis produzidos nos Estados Unidos, na Índia e em outros centros de refino. Esses fornecedores também abastecem consumidores europeus, o que amplia a concorrência internacional.
Em 30 de julho, segundo informações citadas pela Reuters, o prêmio do gasóleo europeu de baixo teor de enxofre sobre o petróleo chegou ao recorde de US$ 74,66 por barril. A agência também apontou que os preços europeus do diesel acumulavam alta superior a 70% desde fevereiro.
A Rússia não é responsável isoladamente pela valorização. Problemas em refinarias e questões relacionadas ao abastecimento no Oriente Médio também pressionam o mercado. A redução dos embarques russos, porém, diminui a oferta disponível e aumenta a disputa por cada carga.
Brasil procura fornecedores alternativos
A relação com o mercado brasileiro é significativa. Em 2025, o país importou 17,09 milhões de metros cúbicos de diesel. Desse total, 8,04 milhões de metros cúbicos vieram da Rússia, aproximadamente 47% das compras externas.
O preço competitivo do combustível russo contribuiu para essa participação. Com a redução das exportações, importadores brasileiros precisam ampliar a busca por fornecedores em outros países. Estados Unidos e Ásia aparecem entre as alternativas, mas enfrentam simultaneamente maior procura de compradores europeus.
O movimento pode elevar os custos de aquisição e aumentar a sensibilidade do mercado brasileiro às oscilações internacionais. O impacto sobre o consumidor, entretanto, depende de outros fatores, como câmbio, tributos, logística e condições de oferta no mercado nacional.
Em 10 de agosto, segundo a Reuters, o contrato futuro americano de diesel com ultrabaixo teor de enxofre subiu 7,4%, para US$ 4,19 por galão. Na mesma sessão, as margens europeias de refino avançaram quase 10%.
Produção nacional oferece algum alívio
O Brasil conta com uma proteção parcial diante da menor oferta internacional. A Petrobras reduziu em 85,2% suas importações de diesel no segundo trimestre e alcançou produção recorde de 3,903 bilhões de litros em julho.
A maior produção doméstica reduz a exposição imediata às oscilações externas. No entanto, o país continua dependendo das importações para equilibrar oferta e consumo.
A participação do biodiesel também integra essa equação, assim como o comportamento do câmbio, a política comercial da Petrobras, os tributos e os custos de transporte.
Para o mercado brasileiro, portanto, a crise russa representa mais do que uma mudança temporária nas rotas de comércio. A menor disponibilidade de diesel amplia a competição internacional e pode tornar mais caro o processo de reposição das cargas.
Enquanto a Rússia mantém parte do combustível voltada ao mercado doméstico e enfrenta limitações no refino, compradores precisam reorganizar suas estratégias. O Brasil possui produção própria e capacidade de reduzir parte da exposição externa, mas continua sujeito às condições do mercado internacional de diesel.
Fonte: CNN Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/a-gasolina-e-uma-mistura-combustivel-gasolina-oleo-combustivel-motor-diesel-motor-diesel-liquido-mistura-viscosa-gas-inflamavel-preto-ouro_44279583.htm



