A tentativa da Fifa de encerrar a crise interna do mandato de Gianni Infantino não deve interromper o debate sobre a governança do futebol mundial. Embora a direção da entidade tenha reafirmado apoio ao presidente, federações, ligas e confederações seguem questionando como decisões estratégicas são tomadas e comunicadas.
Um dia depois de a liderança da Fifa se reunir em Rabat, a entidade pediu desculpas às 211 associações-membro pelos erros ligados à proposta de vender uma parcela do futuro comercial da Copa do Mundo. A medida provocou reação de federações nacionais, que reclamaram de falta de participação.
Em comunicado divulgado após a reunião de quarta-feira, a Fifa reconheceu que a proposta “deveria ter sido tratada de maneira diferente”. A entidade também afirmou que não pretendia que o Comitê da Fifa ou as federações se sentissem excluídos do processo.
Revisão dos processos de decisão
Como resposta à crise, a Fifa anunciou uma revisão dos procedimentos que levaram à controvérsia. A revisão ocorrerá antes da apresentação de um relatório ao Comitê em sua próxima reunião.
O tom adotado após o encontro foi conciliatório. A postura contrasta com as críticas públicas que aumentaram nas últimas semanas e pressionaram a Fifa a abandonar a proposta comercial.
Ainda assim, o episódio ampliou a discussão sobre a governança da entidade. As dúvidas apresentadas por diferentes integrantes do futebol internacional não se limitam aos direitos comerciais da Copa. A forma de consulta às partes interessadas passou a ocupar espaço importante no debate.
A associação de ligas europeias, por exemplo, criticou o prazo de quatro semanas para avaliar outra proposta, que prevê ampliar a Copa do Mundo de 2030 de 48 para 64 seleções. A organização representa mais de 1.300 clubes europeus e voltou a questionar uma prática que considera recorrente: interessados são informados sobre decisões já encaminhadas, em vez de participarem de sua construção.
A Fifa, por sua vez, sustenta que as medidas sobre direitos comerciais seguiram seus regulamentos. Segundo a entidade, os problemas identificados estavam ligados ao processo e à comunicação, e não a violações das regras de governança.
Mesmo após abandonar o projeto, a Fifa adotou uma postura firme diante das críticas. A entidade afirmou que “não toleraria mais quaisquer ataques à sua integridade, boa governança e devido processo”.
Infantino busca novo mandato
Conter as repercussões políticas também virou prioridade para Infantino. O presidente busca chegar à eleição marcada para março no Marrocos com respaldo suficiente para disputar um quarto mandato, que poderá estender sua permanência no cargo até 2031.
Na reunião de quarta-feira, a diretoria da Fifa e o secretário-geral Mattias Grafstrom manifestaram apoio público ao presidente. Infantino, por sua vez, elogiou o trabalho realizado pela administração.
Antes do encontro, Grafstrom havia encaminhado um memorando interno aos funcionários. No documento, lamentou a “série de eventos tristes e repreensíveis”. Embora não tenha citado Infantino nominalmente, escreveu que “indivíduos, momentos de instabilidade e episódios infelizes vêm e vão”.
Publicamente, eventuais sinais de tensão entre os dirigentes foram afastados. Depois da reunião, Infantino publicou uma fotografia ao lado de Grafstrom durante uma partida da Copa Africana das Nações Feminina, em Rabat. Os dois aparecem sorrindo e fazendo o gesto de positivo.
Questionamentos permanecem
O apoio institucional, porém, não encerra as críticas. Partes relevantes do futebol internacional, entre elas a Uefa, entidade responsável pela administração do futebol europeu, já questionaram de forma aberta a condução de Infantino.
As contestações também vieram de outras regiões. A Concacaf, responsável pelo futebol na América do Norte, América Central e Caribe, e a Confederação Asiática de Futebol estiveram entre as confederações que levantaram críticas.
Por isso, a revisão anunciada pela Fifa será observada nos próximos meses, não apenas pelo resultado formal, mas também pela capacidade de responder às reclamações sobre consulta, transparência e comunicação. O apoio a Infantino reduziu a pressão política imediata, mas não eliminou o debate sobre os mecanismos de governança da principal entidade do futebol mundial.
Fonte: Terra
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/bola-de-futebol-com-bandeiras-dos-paises-da-america-do-norte-no-campo-do-estadio-de-futebol-campeonato-da-america-do-norte-concacaf-2021_33994290.htm



