O uso de inteligência artificial em negócios de impacto e organizações do terceiro setor tende a gerar melhores resultados quando combinado com capital humano. Essa foi uma das principais conclusões do webinário “Como a inteligência artificial generativa pode ampliar o impacto de um negócio social”, promovido pela Fundação Dom Cabral (FDC) e voltado à Rede Folha de Empreendedores Socioambientais.
O encontro ocorreu na última quinta-feira (11) e reuniu mais de 30 empreendedores sociais, além de especialistas da escola de negócios parceira do Prêmio Empreendedor Social. A discussão girou em torno das possibilidades de usar IA para ampliar o alcance de iniciativas socioambientais sem perder a qualidade do atendimento e da escuta.
Segundo Ana Burcharth, professora de Inovação da FDC, o primeiro passo para avaliar a adoção da tecnologia é entender seu potencial de escala.
“O primeiro passo é investigar o potencial da IA para trazer escalabilidade, ou seja, como atender mais pessoas com os mesmos recursos”
Ela destacou que a análise não deve parar aí. Também é preciso verificar se a ferramenta realmente aumenta a produtividade.
“Se não, corre-se o risco de pagar caro e perder a qualidade que está no contato humano. Tecnologia é meio, não deveria ser fim.”
Adoção desigual da IA no terceiro setor
Durante o evento, foram apresentados dados de uma pesquisa de 2025 do Canal Sabiar em parceria com o Instituto Beja. O levantamento aponta que a inteligência artificial vem sendo adotada de forma desigual e pouco estratégica por profissionais do campo socioambiental.
De acordo com o estudo, apenas 10% dos movimentos sociais e coletivos apresentam alto nível de adoção da tecnologia. Entre negócios de impacto, o índice sobe para 35%. Já institutos familiares registram 33%, e associações da sociedade civil, 19%.
O uso da IA concentra-se principalmente em comunicação e criação de conteúdo, enquanto áreas como gestão financeira e captação de recursos ainda aparecem com menor intensidade.
Histórias humanas seguem no centro
Os participantes da Rede Folha também puderam compartilhar opiniões por meio da plataforma Slido. Entre os comentários, predominou a percepção de que a inteligência artificial pode ajudar a organizar informações e ampliar a comunicação, mas não substitui a experiência humana.
Um dos exemplos apresentados foi o do Museu da Pessoa, organização que reúne mais de 21 mil relatos de brasileiros em um acervo digital.
Karen Worcman, diretora e fundadora do museu, explicou que a instituição precisa preservar seu papel de espaço de escuta.
“É uma plataforma para qualquer pessoa contar sua história. Não podemos responder com chatbot [robô] porque estaríamos nos anulando como espaço de escuta, mas podemos usar para analisar padrões”
Entre as contribuições anônimas dos participantes, uma delas resumiu essa preocupação:
“IA sem interação humana fica engessada e perde a sensibilidade que só quem vive na prática tem”
Outro participante destacou o valor das trajetórias individuais.
“A tecnologia capta a média, não o desvio. O desvio ainda é humano. E os negócios sociais, com suas histórias e pessoas, têm potencial de fazer a diferença.”
Análise de dados e personas sintéticas
Para as especialistas da FDC, uma aplicação estratégica da inteligência artificial na inovação social está na compreensão das necessidades dos beneficiários por meio da análise de grandes volumes de dados.
A tecnologia também pode apoiar etapas de testes e validações.
“É possível usar personas sintéticas em avaliações quantitativas e qualitativas, fazendo a pré-testagem de algumas soluções antes de chegar a humanos”
O caso da assistente Decola
A Fundação Dom Cabral apresentou ainda a experiência da Decola, assistente de aprendizado voltada a empreendedores populares.
Segundo Miriã de Aguiar Melo, diretora de Empreendedorismo da FDC, a ferramenta surgiu após a identificação de uma dificuldade recorrente no uso de mentorias tradicionais.
“Nós identificamos que a mentoria humana não estava sendo suficientemente aproveitada porque o empreendedor não tinha tempo e se sentia culpado”
O mentor digital funciona 24 horas por dia via WhatsApp e oferece orientações sobre vendas, finanças e marketing. Enquanto um mentor voluntário leva, em média, 15 minutos para responder, a Decola retorna em até 30 segundos.
Quando necessário, mentores humanos entram na conversa para oferecer atendimento mais personalizado.
“Se o empreendedor tem uma linguagem mais informal e é menos letrado, nossa IA conversa de igual para igual para garantir a aprendizagem”
Miriã afirmou ainda que a construção da ferramenta exigiu um processo intenso de treinamento para alcançar resultados satisfatórios.
Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/os-empresarios-usam-a-inteligencia-da-ia-para-procurar-informacoes-de-dados-para-o-crescimento-dos-negocios-e-adicionar-novas_390957809.htm



