Enquanto a indústria do cinema volta os olhos para a cerimônia do Academy Awards, realizada neste domingo, o Brasil chega à premiação com destaque. O longa O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, disputa quatro categorias, entre elas Melhor Filme Internacional e Melhor Filme. A produção também recebeu indicações pela direção de elenco e pela atuação de Wagner Moura.
Entre os elementos que ajudam a compor o universo do filme está uma lenda conhecida no Recife desde os anos 1970. A chamada Perna Cabeluda, surgida inicialmente em circunstâncias pouco claras, atravessou décadas como parte do imaginário popular pernambucano. No longa, a referência surge de forma indireta, integrando a atmosfera de desconfiança e tensão que marca a narrativa ambientada durante a ditadura militar.
A presença da lenda no cinema reforça um aspecto cultural importante daquele período. Em um contexto de censura e vigilância, histórias fantásticas, rumores e personagens misteriosos acabavam funcionando como válvulas de escape simbólicas para uma população que convivia com medo e silêncio impostos pelo regime.
Origem no plantão policial
O episódio que deu origem à expressão ocorreu em 1975, na rampa do Hospital da Restauração. Durante a madrugada, repórteres aguardavam o surgimento de algum caso que pudesse render notícia. Na época, não havia assessoria de imprensa nos hospitais, e os jornalistas circulavam diretamente pelos corredores em busca de informações.
Entre os profissionais presentes estava o repórter Jota Ferreira, da Rádio Repórter, acostumado à rotina de plantões em delegacias e unidades de saúde.
Segundo relato feito posteriormente à Agência Pública, a madrugada parecia tranquila até que um funcionário conhecido como Cobrinha o chamou para observar uma mulher que havia chegado à triagem do hospital. Ela apresentava sinais de agressão grave. O ataque teria ocorrido em uma área do bairro do Recife que concentrava bordéis naquele período.
A vítima estava com o rosto inchado, a dentadura quebrada e mal conseguia falar. Questionada pela polícia sobre quem havia cometido a agressão, ela não apresentou um nome. Repetia apenas que havia sido atacada por “uma perna cabeluda”.
“Eu não posso afirmar quem foi. A mulher não tinha condições de falar”, diz Jota. “O que ficou foi a expressão solta, dita em meio ao atendimento de emergência. Então, se a pessoa quisesse saber quem foi, a identidade era essa: perna cabeluda”.
Da notícia ao folclore urbano
A expressão chegou ao público pouco tempo depois. De volta à redação, o caso foi comentado durante um programa matinal apresentado pelo radialista Geraldo Freire, que tinha grande audiência na capital pernambucana.
A partir dessa menção no rádio, o termo começou a circular entre moradores da cidade. Aos poucos, “perna cabeluda” passou a ser usado sempre que alguém não conseguia identificar o responsável por algum acontecimento estranho.
Barulhos no telhado, portas arrombadas, quintais revirados ou até agressões sem autor conhecido acabavam atribuídos à figura misteriosa. A narrativa ganhava novos detalhes conforme era repetida.
O próprio Jota Ferreira lembra que a expressão começou a aparecer com frequência em conversas dentro do hospital e nas delegacias. Em diversos relatos, pessoas que chegavam para registrar ocorrência diziam ter sido atacadas pela mesma entidade.
“Tinha gente que chegava lá com problema de saúde, ou dizendo que tinha sido espancada, e quando eu, no plantão, perguntava quem foi, a pessoa dizia: foi a perna cabeluda. Mas que perna cabeluda? Quem é a perna cabeluda? Ninguém sabia explicar”, lembra.
A história passou então a aparecer com frequência em programas de rádio e comentários jornalísticos. Em alguns momentos o assunto era tratado com humor. Em outros, despertava preocupação real entre parte da população.
“Isso terminou gerando um medo, um pavor por parte de algumas pessoas”, conta o jornalista.
Símbolo cultural de um período
Com o passar do tempo, a Perna Cabeluda deixou de ser apenas um episódio curioso de plantão policial. A expressão ganhou contornos de lenda urbana e passou a integrar o repertório cultural do Recife.
Durante décadas, a figura reapareceu em narrativas populares, em fantasias de Carnaval e em referências artísticas que buscavam dialogar com o imaginário da cidade.
No cinema de Kleber Mendonça Filho, essa memória coletiva surge como elemento simbólico. No contexto do filme O Agente Secreto, a lenda ajuda a ilustrar um ambiente marcado por rumores, suspeitas e pela dificuldade de identificar responsáveis em um período de repressão política.
A metáfora dialoga com a experiência histórica da ditadura militar brasileira, quando denunciar abusos ou apontar culpados podia representar risco à própria vida. Nesse cenário, histórias fantásticas e figuras misteriosas também funcionavam como linguagem indireta para expressar medos coletivos.
Mais de cinquenta anos após o episódio que deu origem ao termo, a Perna Cabeluda continua presente no imaginário pernambucano. Agora, ao surgir nas telas e alcançar público internacional, a velha lenda urbana do Recife ganha uma nova dimensão cultural, conectando memória popular, história política e cinema brasileiro contemporâneo.
Fonte: Agência Pública
Foto: https://br.freepik.com/fotos-gratis/caderno-ver-fumaca_2021336.htm
