O mercado imobiliário brasileiro tende a apresentar uma desaceleração pontual durante as eleições presidenciais, mas o movimento costuma ser menos intenso do que a percepção de parte dos compradores e vendedores sugere. Dados históricos analisados por Duda Herriot, colunista da CNN Money especializada no setor, indicam que a retração se concentra em um intervalo curto e que as vendas voltam a ganhar ritmo depois da votação.
A avaliação considera o comportamento das comercializações de imóveis em eleições anteriores e questiona a ideia de que a incerteza política paralisa as negociações por períodos prolongados. Para Herriot, a percepção de que o mercado inteiro deixa de funcionar durante a disputa eleitoral não corresponde ao que os números mostram.
“Tem uma crença muito grande sobre esse congelamento de mercado imobiliário por conta da insegurança das pessoas”, afirmou. “E aí a gente acaba achando que por conta de uma data específica, de um rosto ali, o mercado imobiliário inteiro para.”
Por muito tempo, a posse de um vasto patrimônio imobiliário foi tida como símbolo da estabilidade de uma empresa, levando até mesmo algumas organizações a valerem menos no mercado do que o total de seus imóveis. Essa abordagem patrimonialista, contudo, deu lugar a um foco maior na sustentabilidade do fluxo de caixa e na geração de receitas recorrentes. Na visão do especialista em gestão de ativos, Luciano Mestrich Motta, os investidores hoje priorizam companhias capazes de atuar de forma mais ágil e com estruturas de ativos enxutas.
Queda nas vendas se concentra entre os turnos
A análise identificou um intervalo de aproximadamente três semanas entre os turnos eleitorais como o momento em que o mercado imobiliário costuma sentir os efeitos mais perceptíveis da disputa. Antes do primeiro turno, segundo a comentarista, não há impacto significativo nas vendas. Depois da definição eleitoral, a recuperação tende a ocorrer rapidamente.
Os dados de cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro ajudam a dimensionar essa variação. Em Belo Horizonte, a retração nas vendas chegou a cerca de 15% durante o período analisado. No Rio de Janeiro, a redução foi de aproximadamente 6%.
Em São Paulo, a comparação das últimas cinco eleições presidenciais apontou uma diminuição progressiva do impacto. A queda nas vendas, que chegou a 20% em um dos períodos observados, passou para 15% e, posteriormente, alcançou 5%.
Os resultados mostram que o comportamento do mercado não segue necessariamente a expectativa de uma paralisação prolongada. A redução ocorre em uma janela específica, sem indicar, por si só, uma mudança estrutural na procura por imóveis.
“Na verdade, existe uma percepção de pausa, mas na prática ela é muito rápida”, resumiu a comentarista.
Taxa de juros pesa mais nas decisões
Na avaliação de Herriot, a taxa de juros representa um fator mais relevante para o desempenho do mercado imobiliário do que o calendário eleitoral. O custo do crédito influencia a capacidade de financiamento dos compradores e pode alterar as condições para fechar negócios.
“Você tem que acompanhar como está a taxa de juros”, orientou.
Os números citados pela comentarista ilustram essa relação. Em 2021, quando os juros estavam em patamares historicamente baixos, o volume de vendas de imóveis cresceu 46% em São Paulo e 52% em Belo Horizonte. No ano seguinte, com a taxa de juros novamente em dois dígitos, as mesmas cidades registraram quedas entre 15% e 20%.
A comparação reforça a importância de observar as condições econômicas ao avaliar as perspectivas do setor. Embora as eleições possam influenciar temporariamente a disposição de algumas pessoas para negociar, o custo do financiamento interfere diretamente nas condições de compra e na dinâmica das vendas.
Por isso, acompanhar a trajetória dos juros e as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) pode oferecer referências mais concretas para quem pretende realizar uma transação imobiliária.
Comprar ou vender exige atenção aos indicadores
A orientação também vale para proprietários que consideram retirar seus imóveis dos anúncios durante o período eleitoral. Segundo Herriot, suspender a oferta não seria uma estratégia eficiente, pois reduz o tempo de exposição da propriedade aos potenciais compradores sem garantir uma vantagem posterior.
Manter o imóvel disponível permite que interessados continuem encontrando a oferta, mesmo em um momento de menor movimentação. A decisão de interromper a divulgação apenas por causa das eleições pode, portanto, limitar as oportunidades de negociação.
Para quem pretende comprar, a comentarista faz uma ressalva semelhante. A desaceleração temporária das vendas não significa que os preços necessariamente cairão. De acordo com a análise, o valor do metro quadrado não apresenta uma alteração automática durante esse intervalo, o que impede tratar o período eleitoral como uma oportunidade garantida de adquirir imóveis mais baratos.
“O vendedor acaba perdendo bastante disposição do imóvel dele e o comprador está olhando para a métrica errada”, afirmou.
A recomendação é considerar fatores como preço, condições de financiamento e características da propriedade, em vez de basear a decisão exclusivamente no calendário político.
Histórico aponta resiliência do setor imobiliário
Ao projetar o comportamento do mercado nos próximos meses, Herriot mantém uma perspectiva de resiliência, apoiada na experiência de eleições anteriores. A análise indica que eventuais recuos nas vendas tendem a ser limitados no tempo, enquanto a recuperação ocorre depois da definição eleitoral.
“Pelo que a gente olhou para trás, o mercado imobiliário é um mercado muito resiliente”, disse. “Ele pode ter uma quedinha, ele pode ter uma pausa no meio do caminho de três semanas, mas ela é muito menor do que as pessoas de fato acham que ela é.”
A comentarista também chama a atenção para o peso das narrativas políticas nas decisões patrimoniais. Para ela, percepções disseminadas no debate público podem levar compradores e vendedores a adiar negociações sem uma avaliação objetiva das condições do mercado.
“A gente tem muitas narrativas e a gente vai consumindo isso”, observou.
O histórico apresentado sugere que as eleições, isoladamente, não explicam o desempenho das vendas de imóveis. A evolução dos juros, as condições de crédito e os preços praticados continuam sendo referências importantes para avaliar o momento de negociar. A análise, portanto, aponta para uma desaceleração concentrada em poucas semanas, sem evidências de que o período eleitoral provoque, por si só, uma paralisação duradoura do setor.
Fonte: CNN Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/vetores-premium/imagem-vetorial-3d-realista-de-um-modelo-de-casinha-azul-com-pilhas-de-moedas-de-metal-prateado-dinheiro_50337355.htm



