Apesar de produzir grandes volumes de informações clínicas, epidemiológicas e populacionais todos os dias, o sistema de saúde brasileiro utiliza apenas uma fração desse material para orientar decisões assistenciais e políticas públicas.
Para Hans Dohmann, médico e especialista em gestão de saúde, o problema não está na falta de dados, mas na incapacidade estrutural de integrá-los e transformá-los em informação útil para o cuidado e a prevenção.
Dohmann avalia que a fragmentação dos sistemas de informação e a baixa interoperabilidade ampliam custos, aumentam riscos assistenciais e limitam a capacidade de resposta do sistema público e privado. “O Brasil produz uma enorme quantidade de dados em saúde todos os dias, mas ainda falha em usá-los de forma integrada para proteger a população”, afirma.
Sistemas desconectados
O Brasil conta com dezenas de sistemas de informação em saúde operando simultaneamente no âmbito do Sistema Único de Saúde. Bases como as de atenção primária, vigilância epidemiológica, internações hospitalares e procedimentos ambulatoriais funcionam, em grande parte, de forma isolada.
Essa estrutura dificulta a consolidação de um histórico clínico contínuo do paciente e compromete o acompanhamento de condições crônicas, eventos adversos e trajetórias de cuidado.
Segundo o Ministério da Saúde, essa fragmentação reduz a capacidade de análise longitudinal dos dados e dificulta o uso das informações para planejamento, avaliação de políticas públicas e gestão de riscos assistenciais. A ausência de integração também favorece registros duplicados, perda de informações clínicas relevantes e falhas na comunicação entre diferentes pontos da rede de atenção.
Interoperabilidade como desafio estrutural
Criada para enfrentar esse cenário, a Rede Nacional de Dados em Saúde foi instituída como plataforma oficial de integração das informações do SUS. A iniciativa busca permitir o compartilhamento seguro de dados entre sistemas públicos e privados, padronizar registros e ampliar o acesso ao histórico de saúde por profissionais e cidadãos.
Na avaliação de Hans Dohmann, a RNDS representa um avanço institucional importante, mas ainda enfrenta limitações operacionais. “A interoperabilidade não depende apenas de tecnologia, mas de governança, padronização de processos e compromisso dos entes federativos e prestadores”, afirma. A adoção desigual de padrões técnicos e a falta de obrigatoriedade para integração plena ainda restringem o alcance da iniciativa.
Impactos diretos na eficiência e na segurança do cuidado
A subutilização dos dados em saúde tem efeitos concretos sobre a eficiência do sistema. A repetição de exames, a dificuldade de acesso a informações clínicas anteriores e a ausência de dados consolidados aumentam custos assistenciais e podem atrasar diagnósticos e decisões terapêuticas.
Do ponto de vista da saúde pública, a limitação no uso de dados prejudica o monitoramento epidemiológico e a identificação precoce de riscos populacionais. Informações fragmentadas também reduzem a capacidade de detectar surtos, avaliar tendências de mortalidade evitável e direcionar recursos para áreas de maior vulnerabilidade.
Estudos nacionais e internacionais indicam que sistemas integrados de informação são fundamentais para melhorar a coordenação do cuidado, reduzir eventos adversos e orientar políticas baseadas em evidências, especialmente em países com sistemas universais de saúde.
Governança e uso estratégico da informação
Na visão do gestor, o avanço da saúde digital no Brasil passa pela consolidação de uma cultura orientada por dados. Isso envolve não apenas infraestrutura tecnológica, mas também regras claras de governança, qualificação dos profissionais responsáveis pelos registros e uso estratégico das informações na tomada de decisão.
“A informação em saúde precisa deixar de ser apenas um requisito burocrático e passar a ser um ativo para salvar vidas, reduzir desigualdades e tornar o sistema mais eficiente”, analisa. Segundo ele, enquanto dados permanecerem dispersos e subutilizados, oportunidades de prevenção, diagnóstico precoce e melhor gestão continuarão sendo perdidas.
Sobre Hans Dohmann

Hans Dohmann é médico, mestre em Cardiologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e doutor em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Desenvolveu pesquisa em células-tronco em parceria com o Texas Heart Institute. Foi secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro entre 2009 e 2014 e atua nas áreas de gestão populacional e saúde digital no setor privado. Atualmente, é diretor médico da Stone, onde responde pelo Hospital Virtual Verde.
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