Turner cria selo de filmes para “brigar” com blockbusters

Turner acirra assim o mercado de streaming, com produções direcionadas à América Latina, mas com conteúdo em inglês para driblar uma possível rejeição

O mercado de audiovisual é amplo o suficiente para englobar diversos nichos e isso inclui os filmes médios. Eles possuem baixo custo, em vista dos blockbusters e das aventuras de super-heróis, por exemplo, com enredos acessíveis e pretensões comerciais, que os diferencia do cinema de arte. Com ocupações cada vez menos expressivas nas salas de cinema dos grandes shoppings, este tipo de produção audiovisual encontro seu lugar ao sol nos serviços de streaming.

A Netflix é uma dessas empresas que vem investindo pesado em títulos do gênero, como o drama “O Limite da Traição” ou a comédia brasileira “Modo Avião”, que talvez não conseguissem seguir em cartaz nas grandes salas por muito tempo.

Turner – filmes médios

Além do Netflix, outra companhia que tem arriscado neste mercado é a Turner, com a diferença que é por meio da TV paga. A empresa é uma divisão da WarnerMedia.

Ela está em fase de lançamento do selo Particular Crowd (multidão particular, em tradução livre), com o intuito de produzir obras com orçamento de até US$ 15 milhões, considerado alto para o padrão brasileiro, mas que é pouca verba para Hollywood.

O anúncio oficial aconteceu no NATPE, evento ligado ao mercado de TV, promovido em Miami, na  penúltima semana de janeiro.

Gêneros de filmes médios

Os filmes médios se encaixam em cinco gêneros principais: comédias, comédias românticas, filmes para adolescentes, filmes para crianças (inclusive animações) e terror. A iniciativa é direcionada à América Latina. Porém, os longas serão produzidos em inglês, como afirma o vice-presidente executivo e diretor de conteúdo de entretenimento geral da Turner Latin America, Tomás Yankelevich: “O público da região prefere filmes em inglês”.

Ele ainda complementou:

“Os brasileiros quase não veem filmes falados em espanhol na TV, e os hispânicos rejeitam os filmes falados num espanhol que não seja o do país deles.”

Tomás é argentino e já foi diretor de filmes antes de assumir o posto de executivo no setor audiovisual. Vem de uma família ligada à TV. Gustavo, seu pai, foi um dos responsáveis pela estabilização da rede de TV aberta Telefe, emissora que é uma das maiores em audiência. Já sua mãe, Cris Morena, foi atriz de novelas e após isso, se tornou conhecida também do grande público por criar e produzir folhetins do gênero teen, como as renomadas “Chiquititas”, “RBD” e “Floribela”, refeitas em diversos países.

Yankelevich disse também que atualmente um filme é exibido em algum dos canais da Warner, incluindo a Turner, e após três meses já está passando em outro canal concorrente:

“Sentimos a necessidade de ter conteúdo próprio, que o espectador só encontre conosco. Até porque está cada vez mais difícil comprar conteúdo alheio. Todos os grandes estúdios estão lançando seus próprios serviços de streaming e deixando de vender a terceiros seus filmes e séries.”

Ainda neste primeiro semestre, a WarnerMedia vai estrear a plataforma HBO Max.

Produções da Turner no Particular Crowd

No início, os longas do Particular Crowd, serão passados nos canais TNT e Space, também pertencentes à Turner. No entanto, alguns desses títulos também chegarão às telonas. Para isso, a empresa fechou contrato com a exibidora mexicana Cinépolis, que conta com várias salas no Brasil. Já outros filmes serão transformados em episódios de webséries, acessados de modo online.

O canal já possui 30 filmes levando seu selo, com produções próprias e algumas aquisições. Entre eles, o terror “Possessor”, que está em competição no festival norte-americano de Sundance. O longa é dirigido pelo filho do cineasta David Cronenberg, Brandon Cronenberg, e protagonizado por Jennifer Jason Leigh e Sean Bean.

Até o final deste ano, o selo da Turner deseja reunir em torno de uma centena de títulos. O vice-presidente responsável pelo Particular Crowd, Peter Bevan, afirma que sua equipe já avaliou mais de 1.200 roteiros e que procura ser original antes de tudo:

“Trabalhamos dentro de gêneros específicos. Mas, se eu souber de antemão como termina a história, então aquele filme não é para nós.”

Ele também não descarta a chance de produzir obras na América Latina:  

“Os custos são atraentes e a região é cheia de talentos. Acabamos de rodar no Canadá um faroeste contemporâneo dirigido pelo brasileiro Felipe Mucci. Estamos abertos às parcerias.”

Já no Brasil, o primeiro longa-metragem da Turner, via Particular Crowd, poderá ser visto a partir de 14 de fevereiro. É nesta data que estreia na TNT a comédia romântica “Convidado Vitalício”.

Fonte: Folha de S. Paulo

*Foto: Divulgação