As temperaturas elevadas registradas em diversas regiões do mundo têm provocado efeitos que vão além do desconforto provocado pelo calor. Entre eles, a dificuldade para dormir aparece como uma consequência cada vez mais frequente e que pode trazer reflexos importantes para a saúde física, mental e para a rotina da população. Pesquisas recentes mostram que noites mais quentes reduzem o tempo de sono, comprometem o descanso e aumentam a probabilidade de desenvolver doenças crônicas ao longo do tempo.
Na Europa, onde o aquecimento acontece em ritmo superior à média global, as ondas de calor têm chamado atenção pelo impacto na qualidade do sono. Durante o episódio de calor extremo registrado em junho no Hemisfério Norte, cerca de 65% dos adultos do Reino Unido relataram dificuldade para dormir. Quase metade informou ter perdido três horas ou mais de sono em uma única noite.
Embora os dados sejam europeus, especialistas observam que situações semelhantes também são vivenciadas em países de clima tropical, como o Brasil. Em cidades do Nordeste, incluindo o Grande Recife, períodos de temperaturas elevadas e alta umidade costumam tornar as noites mais desconfortáveis, especialmente durante o verão.
Noites quentes reduzem o tempo de descanso
O impacto das mudanças climáticas sobre o sono passou a receber maior atenção da comunidade científica nos últimos anos. Um estudo publicado em julho avaliou 165 milhões de noites de sono registradas por quase 318 mil pessoas que utilizavam dispositivos de monitoramento, como sensores sob colchões e equipamentos vestíveis.
Os pesquisadores verificaram que, quando a temperatura noturna sobe de aproximadamente 12°C para 27°C, a probabilidade de uma pessoa dormir menos de seis horas aumenta em torno de 40%.
Segundo Ty Ferguson, pesquisador da Universidade de Adelaide, na Austrália, os efeitos aparecem rapidamente no funcionamento do organismo. Dormir menos de sete horas por noite compromete a memória, reduz a capacidade de concentração e afeta o equilíbrio emocional.
Além dessas consequências imediatas, o especialista afirma que noites mal dormidas podem elevar o risco de diabetes, depressão, obesidade e doenças cardiovasculares.
Perda de sono preocupa pesquisadores
“O sono é uma necessidade fisiológica fundamental, essencial para a função imunológica, a saúde mental e o bem-estar diário”, diz Bowen Chu, pesquisador da Escola de Ciências Atmosféricas da Universidade de Nanjing, na China.
Chu participou de um estudo publicado em março que analisou os impactos econômicos da perda de sono relacionada às mudanças climáticas entre crianças. Para ele, acompanhar esse fenômeno ajuda a medir efeitos graduais do aquecimento global que nem sempre aparecem em levantamentos voltados apenas para eventos extremos.
“Compreender a perda de sono ajuda os cientistas a quantificar os impactos cotidianos do aumento da temperatura sobre a saúde e a vida das populações ao redor do mundo”, afirmou à DW.
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é que as temperaturas estão aumentando mais rapidamente durante a noite do que durante o dia. De acordo com Kelton Minor, professor associado da Universidade de Copenhague, esse cenário exige maior atenção de governos e instituições de pesquisa. Em parceria com a World Sleep Society, sua equipe propõe a criação de uma força-tarefa internacional dedicada ao tema.
Efeitos atingem principalmente grupos mais vulneráveis
Especialistas alertam que os impactos do calor sobre o sono não atingem todas as pessoas da mesma forma. Crianças podem apresentar dificuldades de aprendizagem, concentração e desenvolvimento emocional. Idosos e pessoas com doenças crônicas ficam mais expostos a problemas cardiovasculares e metabólicos.
A perda contínua de sono também reduz a produtividade, prejudica o desempenho escolar, aumenta o risco de acidentes de trânsito e pressiona os sistemas de saúde.
“Dormir mal dificulta trabalhar, aprender, cuidar dos outros e manter uma boa saúde”, afirmou Chu. Segundo ele, famílias de baixa renda enfrentam maior vulnerabilidade por viverem em residências com pouca ventilação ou sem acesso a equipamentos de refrigeração.
Kelton Minor acrescenta que pessoas em situação de rua, migrantes alojados em estruturas temporárias, detentos, bebês e mulheres grávidas ou no período pós-parto também estão entre os grupos mais afetados pelas noites excessivamente quentes.
Medidas de adaptação ganham importância
Mesmo que o mundo avance na redução das emissões de gases de efeito estufa, especialistas afirmam que a adaptação continuará sendo necessária nas próximas décadas.
Entre as estratégias apontadas estão a ampliação do acesso a ventiladores e aparelhos de ar-condicionado, o uso de roupas de cama mais leves, melhorias no isolamento térmico das construções, ampliação das áreas verdes e adoção de soluções arquitetônicas que favoreçam a ventilação natural e reduzam o acúmulo de calor.
Outra medida considerada importante é a flexibilização dos horários de trabalho durante períodos de calor extremo.
Segundo Minor, adaptar ambientes para garantir noites de sono mais confortáveis deve fazer parte das políticas públicas voltadas às mudanças climáticas. “Adaptar o terço de nossas vidas que passamos dormindo ao aumento das temperaturas noturnas já deveria ser uma prioridade política e de inovação em adaptação na Europa”, afirma.
Fonte: DW
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/jovem-mulher-deitada-na-cama-desfrutando-da-luz-solar-quente-da-manha-apos-acordar_428183089.htm



