Dor intensa no peito, falta de ar súbita e suor frio ainda são os sinais mais conhecidos de um infarto. No entanto, parte dos eventos cardíacos ocorre de forma silenciosa, sem sintomas clássicos ou com manifestações tão discretas que passam despercebidas. O chamado infarto silencioso pode se manifestar apenas como cansaço incomum, leve desconforto nas costas, náusea ou mal-estar passageiro. Em outros casos, o paciente sequer percebe qualquer alteração.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia, as doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de morte no Brasil, responsáveis por cerca de 30% dos óbitos no país. Já a American Heart Association aponta que uma parcela significativa dos infartos pode ocorrer sem sintomas evidentes, sendo identificada apenas posteriormente, por exames como eletrocardiograma ou ressonância magnética cardíaca. Pessoas com diabetes, idosos e mulheres estão entre os grupos mais suscetíveis a apresentações atípicas.
Para o cardiologista Dr. Victor Duque Estrada Zeitune, especialista em Cardiologia Clínica com atuação em gestão de saúde e experiência em serviços hospitalares e unidades de terapia intensiva, o maior risco está justamente na falsa sensação de segurança. Segundo ele, o problema é que muitos pacientes associam infarto exclusivamente à dor intensa no peito, e ignoram sinais mais sutis. “Nem todo infarto provoca dor incapacitante. Em alguns casos, o paciente mantém a rotina e só descobre o ocorrido meses depois, em um exame de rotina”, afirma.
Arritmias ocultas e risco de morte súbita
Além do infarto silencioso, outro desafio é a identificação das arritmias ocultas, alterações no ritmo cardíaco que podem não causar sintomas claros, mas elevam o risco de complicações graves, incluindo acidente vascular cerebral e morte súbita.
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas, a fibrilação atrial é a arritmia sustentada mais comum na prática clínica e pode aumentar em até cinco vezes o risco de AVC, conforme estudos publicados no periódico Circulation, da American Heart Association. O problema é que, em muitos casos, ela é intermitente e assintomática.
De acordo com Dr. Victor Zeitune, episódios de palpitação rápida, sensação de “coração falhando”, tontura leve ou cansaço desproporcional ao esforço devem ser investigados, mesmo quando desaparecem espontaneamente. Ele explica que arritmias podem surgir e cessar em minutos, dificultando o diagnóstico em exames convencionais feitos em consultório. “Há pacientes que só descobrem a arritmia após um evento mais grave, como um desmaio ou um AVC. Por isso, a investigação precoce é fundamental”, ressalta.
A morte súbita cardíaca, muitas vezes associada a arritmias malignas, também preocupa. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que milhões de mortes súbitas ocorrem anualmente no mundo, muitas delas relacionadas a doenças cardíacas estruturais ou distúrbios elétricos não diagnosticados previamente.
Por que os sintomas podem não aparecer
A ausência de sintomas claros pode estar ligada a diferentes fatores. No caso do infarto silencioso, pessoas com diabetes podem ter neuropatia, condição que reduz a percepção da dor. Já idosos podem apresentar sintomas atípicos, como confusão mental ou fraqueza. Mulheres também tendem a relatar sinais menos específicos, como dor no pescoço, nas costas ou fadiga intensa.
Estudo publicado no Journal of the American Medical Association mostrou que infartos sem sintomas clássicos estão associados a maior risco de mortalidade a longo prazo, justamente porque o diagnóstico e o tratamento costumam ser tardios. Para especialistas, isso reforça a importância do acompanhamento regular, especialmente em indivíduos com fatores de risco como hipertensão, colesterol elevado, tabagismo, obesidade e histórico familiar.
Dr. Victor Zeitune destaca que o coração pode sofrer lesões progressivas sem gerar sinais evidentes. Segundo ele, a obstrução das artérias pode evoluir de forma gradual, permitindo que o organismo se adapte parcialmente à redução do fluxo sanguíneo. “O paciente pode não sentir dor, mas o músculo cardíaco está sendo afetado. Quando o quadro finalmente se manifesta, a situação pode já estar avançada”, explica.
Tecnologia como aliada na prevenção
Diante desse cenário, a cardiologia tem avançado no uso de exames capazes de detectar alterações precoces. Monitorizações prolongadas do ritmo cardíaco, como o Holter de 24 horas e dispositivos de longa duração, ajudam a registrar arritmias intermitentes. Exames de imagem, como ecocardiograma, tomografia coronariana e ressonância magnética cardíaca, permitem avaliar estrutura e função do coração com maior precisão.
Além disso, dispositivos vestíveis, como relógios inteligentes com sensores de frequência cardíaca e eletrocardiograma integrado, têm contribuído para a identificação de alterações rítmicas, embora não substituam avaliação médica. Estudos recentes publicados na revista The New England Journal of Medicine indicam que tecnologias digitais podem ampliar a detecção de fibrilação atrial em populações de risco.
De acordo com o cardiologista, a combinação entre tecnologia e acompanhamento clínico é o caminho mais eficaz. Ele afirma que exames não devem ser realizados de forma indiscriminada, mas indicados conforme perfil de risco individual. “Prevenção não é excesso de exames, é estratégia. Avaliar histórico, fatores de risco e sintomas, mesmo que discretos, permite agir antes que surjam complicações graves”, diz.
Atenção aos sinais e acompanhamento regular
Especialistas reforçam que a melhor forma de enfrentar infartos silenciosos e arritmias ocultas é investir em prevenção. Controle da pressão arterial, níveis adequados de colesterol e glicemia, prática regular de atividade física e abandono do tabagismo estão entre as principais medidas recomendadas por entidades como a Sociedade Brasileira de Cardiologia e a Organização Mundial da Saúde.
Mesmo na ausência de sintomas, check-ups periódicos podem identificar alterações iniciais. Segundo Dr. Victor Zeitune, o recado principal é não subestimar mudanças aparentemente pequenas no organismo. “O coração raramente falha sem deixar algum indício, ainda que discreto. Ouvir o corpo e manter acompanhamento médico regular são atitudes que salvam vidas”, conclui.



