As doenças cardiovasculares provocam quase 1,2 mil mortes por dia no Brasil, o equivalente a uma vítima a cada 72 segundos. Dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) apontam uma média de 1.194 óbitos diários, número que mantém as enfermidades do coração e da circulação entre os principais desafios da saúde pública brasileira.
Embora a mortalidade cardiovascular tenha diminuído nas últimas duas décadas, a entidade estima que o número anual de mortes poderá crescer 10,8% até 2030. A projeção considera a continuidade das tendências observadas no período e reforça a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do acompanhamento médico.
Até as 11h de 8 de outubro de 2026, o país contabilizava 334.898 mortes por essas doenças no ano, segundo os dados apresentados pela SBC. O cenário preocupa especialistas, sobretudo diante das dificuldades para controlar condições como hipertensão arterial, diabetes e colesterol elevado.
Geralmente, a atenção à prevenção cardiovascular só é despertada após o surgimento de sintomas, exames alterados ou eventos clínicos que sinalizam o problema. Contudo, o médico cardiologista, pesquisador e executivo da saúde Dr. Hans Dohmann defende uma mudança fundamental de perspectiva: a assistência ao coração precisa anteceder qualquer sinal clínico, priorizando o monitoramento constante dos fatores de risco e o diagnóstico precoce de anormalidades propensas a evoluir para quadros cardiovasculares gravosos.
Mortalidade cardiovascular pode aumentar até 2030
Em 2024, o Brasil registrou 417.550 mortes relacionadas a doenças cardiovasculares. Caso as tendências históricas permaneçam, a estimativa da SBC é que esse total alcance 462.573 óbitos em 2030, uma diferença de 45.023 mortes ao longo do período.
Antonio Luiz Pinho Ribeiro, coordenador da plataforma de dados da entidade, ressalta que os números representam um cenário possível, não uma previsão definitiva.
“A previsão não determina exatamente qual será o patamar em 2030, principalmente se houver mudanças significativas na prevalência de fatores de risco, na ampliação do acesso ao diagnóstico e ao tratamento e na implantação de políticas públicas de prevenção”, afirma Ribeiro.
A evolução dos indicadores dependerá, entre outros aspectos, das condições de saúde da população, da disponibilidade de serviços médicos e da qualidade dos registros de óbitos. Por isso, a estimativa pode mudar conforme as medidas adotadas nos próximos anos.
O cardiologista Luiz Aparecido Bortolotto, do Instituto do Coração (InCor), destaca que a prevenção permanece como um dos principais obstáculos para reduzir as mortes.
“Infelizmente, a prevenção com o controle dos principais fatores de risco não é adequada e está longe do ideal”, afirma Bortolotto.
Entre os fatores associados às doenças cardiovasculares estão hipertensão, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, obesidade e estresse. O acompanhamento dessas condições pode contribuir para diminuir a ocorrência de complicações, como infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs).
Queda de 36% na taxa de mortalidade
Apesar da possibilidade de aumento no número absoluto de óbitos, os dados da SBC mostram uma redução da taxa de mortalidade cardiovascular padronizada por idade nos últimos 20 anos.
O indicador passou de 306,4 mortes por 100 mil habitantes nos anos 2000 para 195 por 100 mil habitantes em 2024, uma queda de 36%. A medida considera as diferenças na estrutura etária da população e permite comparar os resultados ao longo do tempo.
Segundo Bortolotto, parte desse avanço está relacionada à identificação e ao tratamento mais precoces de infartos e AVCs em unidades de pronto atendimento (UPAs) e serviços de emergência. O atendimento oportuno ajuda a reduzir complicações e pode diminuir o risco de morte.
A redução da taxa, porém, não significa que os fatores de risco estejam sob controle. Para manter os avanços, a SBC aponta a necessidade de ampliar o diagnóstico, garantir acesso ao tratamento e fortalecer ações preventivas.
Entre as medidas destacadas estão o controle da pressão arterial, do diabetes e do colesterol, a redução do tabagismo, o combate à obesidade e ao sedentarismo e a oferta de atendimento adequado para pacientes com infarto ou AVC.
Diferenças regionais exigem atenção
Os indicadores também revelam desigualdades entre os estados. Alagoas apresenta a maior taxa de mortalidade cardiovascular do país, com 245,5 óbitos por 100 mil habitantes. Na sequência aparecem Amapá, com 225,1, e Mato Grosso do Sul, com 220,4 mortes por 100 mil habitantes.
Bortolotto relaciona parte dessas diferenças às dificuldades de acesso ao tratamento dos fatores de risco e das próprias complicações cardiovasculares. Para enfrentar o problema, o especialista defende a ampliação dos cuidados de saúde e o acompanhamento adequado dos pacientes.
O cardiologista também considera importante disponibilizar medicamentos mais potentes no Sistema Único de Saúde (SUS), de modo a ajudar no controle da hipertensão, do diabetes e do colesterol elevado.
A ausência de sintomas não elimina o risco. Por isso, consultas regulares e a identificação precoce dessas condições são medidas relevantes para evitar complicações.
“O mais importante é convencer que, mesmo sem sentir nada, a pessoa pode estar sob risco. Por isso, hábitos de vida saudável e consultas regulares são o melhor início de uma boa prevenção”, afirma Bortolotto.
Plataforma reúne indicadores de saúde cardiovascular
Os dados foram apresentados durante o 81º Congresso Brasileiro de Cardiologia, realizado no Rio de Janeiro em conjunto com o Congresso Mundial de Cardiologia. Na ocasião, a SBC anunciou o lançamento do Hub de Doenças Cardiovasculares, plataforma que reúne informações epidemiológicas sobre as enfermidades do coração e do sistema circulatório.
A ferramenta incorpora o Cardiômetro, sistema que acompanha o número estimado de mortes por doenças cardiovasculares no Brasil. Também disponibiliza indicadores de mortalidade, incidência, prevalência e fatores de risco.
Entre as informações estão os anos de vida saudável perdidos, conhecidos como DALYs, os anos de vida perdidos por morte prematura (YLLs) e os anos vividos com incapacidade (YLDs). Os dados podem ser consultados em mapas, séries históricas e rankings estaduais, com recortes por sexo e faixa etária.
Para Gláucia Maria Moraes de Oliveira, editora-chefe da revista científica ABC Cardiol e coordenadora da plataforma, a análise regional permite compreender as diferenças entre as localidades e orientar estratégias de prevenção e assistência.
A iniciativa busca apoiar a avaliação da evolução das doenças cardiovasculares no país. Os indicadores também podem contribuir para identificar necessidades regionais e acompanhar os resultados das políticas de saúde.
Os dados apresentados pela SBC mostram que a redução da mortalidade depende tanto da capacidade de atender pacientes com infarto e AVC quanto de ações que evitem essas ocorrências. O controle dos fatores de risco, o acesso ao diagnóstico e a continuidade do tratamento permanecem entre os pontos centrais para modificar as projeções até 2030.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/closeup-de-coracao-e-um-conceito-de-check-up-cardiovascular-estetoscopio_3540758.htm



