A prevenção cardiovascular ainda costuma ganhar atenção quando surgem sintomas, alterações em exames ou algum episódio que indique a existência de um problema. Para o Dr. Hans Dohmann, pesquisador, gestor, executivo do setor de saúde e cardiologista, essa lógica precisa ser invertida: o cuidado com o coração deve começar muito antes de uma manifestação clínica, com acompanhamento dos fatores de risco e identificação precoce de alterações que possam evoluir para doenças cardiovasculares.
A dimensão desse desafio ajuda a explicar a importância da mudança. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças cardiovasculares provocaram milhões de mortes em 2022 ao redor do mundo, permanecendo como a principal causa de morte no mundo. No Brasil, as doenças cardiovasculares também ocupam a primeira posição entre as causas de morte. Dados compilados pelo Ministério da Saúde apontam aproximadamente 400 mil mortes cardiovasculares em 2022.
“A prevenção cardiovascular não deve começar quando aparece uma dor no peito ou quando um exame apresenta uma alteração importante, inclusive porque são condições silenciosas e quando há sintomas expressivos, normalmente o quadro já avançou. O ideal é identificar os fatores de risco muito antes de um evento e acompanhar sua evolução ao longo do tempo. Quanto mais cedo conseguimos intervir, maior é a possibilidade de modificar a trajetória daquela doença”, afirma Hans Dohmann.
Prevenção exige olhar para fatores de risco antes dos sintomas
A prevenção cardiovascular costuma ser associada principalmente à alimentação, atividade física e controle do peso, mas o conjunto de fatores que pode comprometer a saúde do coração é mais amplo. Hipertensão arterial, colesterol elevado, diabetes, obesidade, tabagismo, sedentarismo e consumo excessivo de álcool estão entre os principais fatores modificáveis relacionados às doenças cardiovasculares, segundo a OMS. A esses elementos somam-se idade, histórico familiar e predisposição genética, que não podem ser modificados, mas podem indicar a necessidade de acompanhamento mais precoce.
Há ainda condições específicas que exigem investigação e tratamento próprios. Doença de Chagas, febre reumática, algumas doenças infecciosas e determinadas alterações cardíacas congênitas ou adquiridas também podem provocar comprometimento cardiovascular. No caso da doença de Chagas, a infecção pode permanecer silenciosa durante anos antes de evoluir para manifestações cardíacas.
Para Hans Dohmann, essa diversidade reforça a importância de uma prevenção baseada em avaliação individual, e não apenas em recomendações gerais.
“A maior recomendação é que hábitos saudáveis façam parte da rotina de todos, uma vez que o sedentarismo é o principal fator de risco para a saúde cardiovascular. Ainda assim, não existe um único caminho para as alterações no coração e neste sentido é preciso identificar o perfil de risco de cada pessoa e acompanhar sua evolução ao longo do tempo”, destaca o Dr Dohmann.
A necessidade de antecipar o cuidado está relacionada ao próprio comportamento de diversas doenças cardiovasculares. Hipertensão e colesterol elevado, por exemplo, podem permanecer sem sintomas durante longos períodos, enquanto produzem alterações progressivas no sistema cardiovascular. O acompanhamento médico periódico permite identificar essas condições e iniciar intervenções antes que evoluam para complicações.
Alimentação equilibrada, atividade física regular, abandono do tabagismo, controle do peso, qualidade do sono e acompanhamento da pressão arterial, glicemia e colesterol integram uma estratégia contínua de proteção cardiovascular. A OMS recomenda a identificação precoce dos fatores de risco e o controle das condições que podem aumentar a probabilidade de infarto, acidente vascular cerebral e outras complicações.
“O maior desafio da prevenção é justamente agir quando a pessoa ainda se sente saudável. Muitas das condições que aumentam o risco cardiovascular não produzem sinais claros no início. O acompanhamento periódico permite identificar essas alterações, intervir mais cedo e evitar que o primeiro diagnóstico aconteça depois de um evento grave”, destaca o especialista.
Informação transforma prevenção em cuidado contínuo
Além do acompanhamento clínico, o acesso à informação passa a ter importância crescente. Conhecer os fatores de risco permite que o indivíduo compreenda por que determinados exames são necessários, reconheça mudanças no próprio estado de saúde e participe de maneira mais ativa das decisões relacionadas ao cuidado.
Para Hans Dohmann, esse processo precisa aproximar prevenção e acompanhamento médico: “A informação só produz resultado quando se transforma em comportamento e acompanhamento. O paciente precisa entender seus riscos e saber o que pode fazer para reduzi-los, mas também precisa contar com uma estrutura de cuidado capaz de acompanhar sua evolução. A prevenção cardiovascular é um processo, não uma ação isolada”, afirma.
O Dia Mundial do Coração, celebrado em 29 de setembro, amplia a visibilidade dessa discussão, mas a prevenção precisa ultrapassar a data e fazer parte da rotina. Em um cenário no qual diversos fatores de risco podem ser identificados e modificados antes de um evento cardiovascular, antecipar o cuidado significa criar condições para intervir antes que a doença se manifeste de forma grave.
Para o especialista, essa mudança de perspectiva é essencial para uma cardiologia cada vez mais preventiva e individualizada: “Cuidar do coração não deve ser uma resposta a um problema já instalado. Deve ser uma estratégia construída ao longo da vida, baseada em acompanhamento, informação e decisões adequadas ao risco de cada pessoa”, conclui Hans Dohmann.
Imagem: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/jovem-sentindo-se-doente-e-segurando-o-peito-de-dor-enquanto-bebia-cha-na-sala-de-estar_26343755.htm#fromView=search&page=1&position=0&uuid=1cea2556-d7b6-4f46-a5a0-b479cfe32bc8&track=ais_hybrid&query=doen%C3%A7a+cardio



