A 1ª Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam), localizada no bairro de Santo Amaro, área central do Recife, retomou o funcionamento em tempo integral após passar por reforma. A reabertura ocorreu na terça-feira (31) e marca o retorno da unidade ao endereço tradicional, na Praça do Campo Santo, depois de meses operando provisoriamente no bairro do Rosarinho.
Na mesma ocasião, o governo de Pernambuco apresentou a plataforma digital 197 Mulher, criada para ampliar o acesso de vítimas de violência doméstica e familiar a serviços de denúncia, orientação e proteção. A ferramenta pode ser acessada por celular ou computador e busca reduzir barreiras enfrentadas por mulheres que, muitas vezes, não conseguem formalizar queixas presencialmente.
A proposta do novo sistema é concentrar diferentes etapas do atendimento em um único ambiente virtual. Por meio da plataforma, é possível registrar informações sobre agressões, anexar imagens e vídeos, solicitar medidas protetivas de urgência e receber orientações sobre direitos e redes de apoio disponíveis no estado.
Segundo o governo estadual, os pedidos de proteção podem ser analisados e concedidos em até quatro horas. O atendimento é realizado por policiais capacitados, com monitoramento contínuo, em uma interface que se aproxima da lógica de aplicativos de mensagens, o que tende a facilitar o uso.
O secretário de Defesa Social de Pernambuco, Alessandro Carvalho, afirmou que a criação do canal pode contribuir para interromper ciclos de violência que, em muitos casos, permanecem invisíveis ao poder público.
“Nós não temos nenhum feminicídio que aconteça da noite para o dia. É uma escalada de violência que culmina, em certos casos, num feminicídio. O mais importante é interromper essa escalada. Para interromper, o estado precisa tomar conhecimento que aquilo está acontecendo. Muitas vezes, essa violência acontece entre quatro paredes, no seio de uma família, e isso não chega ao conhecimento do estado”, disse o secretário.
Estrutura ampliada e atendimento mais reservado
A reforma da delegacia trouxe mudanças na organização interna e ampliou a capacidade de atendimento. De acordo com a delegada Bruna Falcão, responsável pelo Departamento da Mulher da Polícia Civil, o novo espaço foi pensado para oferecer mais privacidade e acolhimento às vítimas.
“Agora nós teremos salas individualizadas para registro de ocorrência. As salas visualizam a brinquedoteca, já que muitas mulheres vêm procurar atendimento com as suas crianças. Elas vão poder ficar na brinquedoteca em segurança, sendo observadas pelas mães”, contou Bruna Falcão.
Outro ponto destacado é a proximidade da unidade com o Instituto de Medicina Legal (IML), também situado em Santo Amaro. A localização facilita a realização de exames periciais em casos de violência física e sexual, reduzindo deslocamentos e agilizando procedimentos.
A delegacia havia sido fechada para obras em novembro de 2024, com previsão inicial de conclusão em abril de 2025. Durante esse período, o atendimento foi mantido em endereço provisório na Zona Norte da cidade.
Segundo dados oficiais, foram investidos R$ 655 mil na requalificação do prédio e outros R$ 300 mil no desenvolvimento da plataforma digital, por meio do Fundo Inovar-PE.
Aumento nas tentativas de feminicídio
A reabertura da delegacia e o lançamento da plataforma ocorrem em um cenário de preocupação com a violência de gênero no estado. Dados da Secretaria de Defesa Social apontam que 18 mulheres foram vítimas de feminicídio em Pernambuco nos meses de janeiro e fevereiro de 2026, número igual ao registrado no mesmo período do ano anterior.
As tentativas, no entanto, cresceram de forma significativa. Passaram de 20 casos em 2025 para 34 em 2026, o que representa um aumento de 70%.
Durante o lançamento da nova ferramenta, a governadora Raquel Lyra destacou que as iniciativas buscam ampliar o acesso à proteção e fortalecer a rede de atendimento. Ela também anunciou a expansão dos centros de acolhimento no estado.
“A gente também aposta no fortalecimento dos organismos municipais. […] Imagina que Pernambuco, em toda sua história, tem 31 centros de acolhimento. Agora, nós vamos ter 61 nos próximos 30 dias, com financiamento do governo do estado, apoio técnico e rede de proteção”, declarou a governadora.
Rede de apoio e canais de denúncia
No Recife, mulheres em situação de violência contam com diferentes pontos de atendimento. Entre eles, o Centro de Referência Clarice Lispector, em Santo Amaro, que funciona 24 horas, e o Serviço Especializado e Regionalizado (SER) Clarice Lispector, no bairro de Areias, com atendimento diário das 7h às 19h.
Também há atendimento nas Salas da Mulher instaladas em unidades do Compaz, distribuídas em bairros como Alto Santa Terezinha, Cordeiro, Coque e Ibura. Além disso, um plantão via WhatsApp funciona 24 horas pelo número (81) 99488-6138.
As denúncias podem ser feitas pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, disponível todos os dias. Em situações de emergência, a Polícia Militar pode ser acionada pelo 190. Há ainda o Disque-Denúncia da Polícia Civil, no número (81) 3421-9595, e canais do Ministério Público e da Ouvidoria da Mulher, que oferecem atendimento em horários específicos.
Fonte: G1
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