Fernando de Noronha enfrenta um cenário de ocupação acima da capacidade considerada segura para manter serviços básicos e preservar os recursos naturais da ilha. O dado faz parte do Estudo da Capacidade de Carga apresentado pelo governo de Pernambuco durante reunião do Conselho Gestor do arquipélago, realizada na sexta-feira (8).
O levantamento foi desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia de Pernambuco (Itep) e definiu que a ilha suporta até 6.994 pessoas simultaneamente sem comprometer áreas como abastecimento de água, geração de energia, tratamento de esgoto e gestão de resíduos.
Na prática, porém, o volume atual está bem acima desse limite. Segundo os dados apresentados, Fernando de Noronha reúne hoje 7.883 moradores, entre permanentes e temporários, além de uma média de 3.075 turistas presentes ao mesmo tempo. O total chega a 10.858 pessoas simultaneamente, número 3.864 superior ao recomendado pelo estudo.
A divulgação do levantamento era aguardada por representantes do setor turístico, que defendem maior ampliação da visitação no arquipélago. Ao mesmo tempo, órgãos ambientais apontam que o crescimento do fluxo de turistas exige reforço na infraestrutura antes de qualquer expansão.
A chefe do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Lilian Hangae, afirmou que o estudo confirma uma situação que já vinha sendo percebida na rotina da ilha.
“O Estudo de Capacidade de Carga aponta quais serviços precisam ser melhorados antes de ampliar o número de visitantes”, declarou.
Água, energia e lixo estão entre os principais desafios
O estudo avaliou diferentes áreas consideradas essenciais para o funcionamento sustentável de Fernando de Noronha. Entre os fatores analisados estão produção de água potável, fornecimento de energia elétrica, coleta e tratamento de esgoto, além da destinação do lixo produzido por moradores e turistas.
A pesquisa foi encomendada pela Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH). Segundo o diretor-presidente do órgão, José Anchieta, o processo incluiu participação de moradores e representantes de entidades locais.
De acordo com Anchieta, foram realizadas 20 reuniões e oficinas durante a elaboração do estudo para discutir os impactos da ocupação da ilha e possíveis soluções.
O dirigente também destacou que obras em andamento podem ampliar a capacidade de suporte do arquipélago nos próximos anos. Entre elas estão projetos de geração de energia solar conduzidos pela Neoenergia e a expansão da rede de esgoto executada pelo governo estadual.
“Agora temos um instrumento de planejamento para definir regras sobre o uso dos recursos e a ocupação da ilha. A partir desse estudo, vamos estabelecer normas e revisar periodicamente os dados para evitar que Noronha entre em colapso”, afirmou.
Número de visitantes já supera acordo de gestão
Durante a apresentação do estudo, Lilian Hangae lembrou que Fernando de Noronha já possuía um limite provisório de visitação definido por acordo de gestão compartilhada entre os governos estadual e federal.
O pacto estabelecia teto de 11 mil visitantes por mês e até 132 mil turistas por ano enquanto o estudo técnico não fosse concluído. Mesmo assim, os números mais recentes já superaram esse patamar.
Em 2025, o arquipélago recebeu 139.901 visitantes, acima do limite anual previsto no acordo.
Segundo o ICMBio, os impactos da pressão turística já atingem não apenas o meio ambiente, mas também o cotidiano dos moradores. Aumento da demanda por água, crescimento da produção de lixo e maior consumo de energia aparecem entre os principais pontos de preocupação.
Estudo recomenda mudanças para ampliar turismo de forma sustentável
O documento também apresenta uma lista de recomendações para reduzir os impactos ambientais e permitir uma possível expansão futura do turismo em Fernando de Noronha.
Na área de energia, a principal proposta é ampliar a geração renovável, especialmente solar, em residências, pousadas, prédios públicos e empreendimentos turísticos. O estudo ainda recomenda a implantação de sistemas de armazenamento de energia, como baterias, para reduzir o uso de geradores térmicos nos horários de maior consumo.
Outras medidas sugeridas incluem troca de equipamentos por modelos mais eficientes, monitoramento do consumo para identificar desperdícios e campanhas educativas voltadas para moradores e visitantes.
No abastecimento de água, o levantamento recomenda reforçar o sistema de dessalinização, reduzir perdas na rede de distribuição e ampliar projetos de reaproveitamento da água da chuva e de águas cinzas para limpeza e irrigação.
O estudo também sugere criar regras para construção de piscinas e estabelecer limites de consumo hídrico, principalmente no setor turístico.
Gestão de resíduos preocupa autoridades
A destinação do lixo produzido na ilha aparece como outro desafio apontado no levantamento. Entre as recomendações estão ampliação da coleta seletiva, redução do uso de plásticos descartáveis e fortalecimento de sistemas de compostagem para resíduos orgânicos.
O documento ainda propõe melhorar o armazenamento e o transporte do lixo enviado para o continente, além de dividir a responsabilidade da gestão de resíduos entre comerciantes e prestadores de serviço.
Outra medida apresentada prevê reciclagem de plástico dentro da própria ilha para utilização em trilhas e acessos.
Por fim, o estudo defende campanhas permanentes de educação ambiental e ações de fiscalização sobre descarte irregular de resíduos, incluindo orientações direcionadas aos turistas que visitam Fernando de Noronha.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/vista-panoramica-de-fernando-de-noronha-contra-o-ceu_114839129.htm



