A pandemia de Covid-19 deixou um impacto muito maior do que os números oficiais indicavam até então. De acordo com o relatório “Estatísticas Mundiais de Saúde”, divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 15 de maio de 2026, o total de mortes associadas à doença entre 2020 e 2023 chegou a 22,1 milhões em todo o planeta. O dado supera em mais de três vezes os cerca de 7 milhões de óbitos anteriormente reportados.
A revisão dos números considera não apenas casos que deixaram de ser registrados oficialmente, mas também as chamadas mortes indiretas. Nesse grupo estão pessoas que perderam a vida em consequência do colapso dos sistemas de saúde ou da dificuldade de acesso a tratamentos para outras doenças durante os momentos mais críticos da pandemia.
O novo levantamento reforça a dimensão da crise sanitária global e reacende o debate sobre fatores que contribuíram para ampliar seus efeitos. Entre eles, especialistas destacam o avanço da desinformação, que comprometeu estratégias de prevenção, enfraqueceu a confiança em autoridades científicas e influenciou comportamentos da população em diversos países.
Na visão do médico e especialista em gestão de saúde Hans Dohmann, o entrave principal não reside na escassez de dados, mas sim na deficiência estrutural em articular e converter esse volume em informações valiosas para as estratégias de prevenção e assistência.
A desinfodemia que acompanhou a pandemia
Enquanto o coronavírus se espalhava pelo mundo, outro fenômeno também ganhava força. A circulação massiva de informações falsas ou enganosas sobre a doença passou a ser tratada por organismos internacionais como uma ameaça à saúde pública.
Foi nesse contexto que surgiu o termo “desinfodemia”, criado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a partir do estudo “Disinfodemic – Deciphering Covid-19 Disinformation”, publicado em abril de 2020.
Segundo o documento, “a desinformação sobre a Covid-19 cria confusão em relação à ciência médica com impacto imediato em todas as pessoas do planeta e em sociedades inteiras. É mais tóxica e mais mortal do que a desinformação sobre outros assuntos”.
A pesquisa identificou nove grandes eixos temáticos da desinformação relacionada à pandemia. Entre eles estavam falsas informações sobre a origem do vírus, manipulação de estatísticas, questionamentos ao trabalho da imprensa, divulgação de tratamentos sem comprovação científica, politização da doença, impactos econômicos e conteúdos voltados a celebridades.
Todos esses elementos foram observados também no cenário brasileiro.
A desinformação afetou diretamente a percepção pública sobre a gravidade da Covid-19 e sobre a necessidade de seguir orientações sanitárias. Em muitos casos, contribuiu para que parte da população ignorasse recomendações de especialistas e medidas defendidas por organismos internacionais de saúde.
Mais do que um conjunto de notícias falsas isoladas, o fenômeno passou a ser entendido como um sistema complexo de produção e disseminação de conteúdos enganosos, com impactos sociais, políticos, econômicos e sanitários.
O caso brasileiro durante a Covid-19
No Brasil, o avanço da pandemia ocorreu em meio a uma intensa disputa narrativa sobre a doença. A partir de março de 2020, recomendações amplamente defendidas pela OMS, como isolamento social, uso de máscaras, distanciamento físico e restrição de aglomerações, passaram a ser frequentemente questionadas por integrantes do governo federal.
O ambiente informacional do período foi marcado pela circulação de conteúdos falsos, pela promoção de medicamentos que posteriormente se mostraram ineficazes contra a Covid-19 e por ataques recorrentes a consensos científicos.
As transmissões ao vivo realizadas pelo então presidente Jair Bolsonaro tiveram papel central nesse contexto. Durante diversas manifestações públicas, ele minimizou os riscos da doença e afirmou que a situação estava sob controle, além de classificar a Covid-19 como “uma gripezinha”.
Segundo a análise apresentada no texto, essas declarações contribuíram para fortalecer comportamentos negacionistas e ampliar a desconfiança em relação às recomendações de especialistas e autoridades sanitárias.
O Brasil encerrou o período mais crítico da pandemia com mais de 700 mil mortes registradas por Covid-19. Com a atualização divulgada pela OMS, especialistas apontam que o impacto real pode ter sido ainda maior.
O chamado ecossistema de desinformação consolidado durante o governo Bolsonaro é descrito como uma estrutura organizada de produção e disseminação de conteúdos falsos, envolvendo diferentes canais de comunicação e múltiplos agentes.
Nesse cenário, redes sociais, declarações públicas, materiais institucionais e transmissões oficiais foram utilizados para impulsionar narrativas que contrariavam evidências científicas. As lives presidenciais receberam destaque especial por seu alcance e capacidade de mobilização.
As conclusões da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, realizada pelo Congresso Nacional entre abril e outubro de 2021, reforçaram o debate sobre a influência dessas estratégias de comunicação durante a crise sanitária.
Em um momento marcado pelo medo, pela incerteza e pela rápida disseminação de uma doença altamente contagiosa, a propagação sistemática de informações enganosas teve potencial para gerar confusão, aumentar o estresse coletivo, moldar percepções sociais e interferir na confiança da população em instituições científicas.
A revisão dos dados globais pela OMS amplia a compreensão sobre os efeitos da pandemia e reforça o impacto que a desinformação pode ter em situações de emergência sanitária. O número de vítimas, agora estimado em 22,1 milhões de mortes no mundo, evidencia uma tragédia de proporções ainda maiores do que se imaginava.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/pessoas-em-todo-o-mundo-usam-mascaras-faciais-durante-a-pandemia_16017702.htm



