A inédita vitória da diretora de fotografia norte-americana Autumn Durald Arkapaw no Oscar marcou um momento histórico para a indústria cinematográfica. Premiada pelo trabalho em “Pecadores”, ela tornou-se a primeira mulher a conquistar a estatueta da categoria desde a criação do prêmio, em 1929. O reconhecimento, entretanto, também evidenciou um cenário em que mulheres seguem ocupando espaço reduzido nas produções audiovisuais.
Dados da Universidade de San Diego mostram que apenas 7% dos 250 filmes de maior bilheteria dos Estados Unidos em 2025 tiveram mulheres na direção de fotografia. No Brasil, levantamento da Universidade Federal Fluminense (UFF), elaborado a partir de informações da Agência Nacional do Cinema (Ancine), indica que elas responderam pela concepção visual de somente 20% dos longas exibidos em salas de cinema em 2024.
O resultado representa o maior percentual registrado desde o início do monitoramento, em 2014, mas ainda revela uma diferença significativa entre homens e mulheres em uma das áreas mais valorizadas da produção cinematográfica.
A repercussão da conquista de Autumn também alcançou profissionais brasileiras. A diretora de fotografia Lílis Soares acompanhou a cerimônia do Oscar e afirma que ver uma mulher negra alcançar esse reconhecimento reforçou a possibilidade de transformação em um mercado que ainda convive com episódios frequentes de discriminação.
Mercado ainda limita o crescimento das profissionais
Embora o debate sobre igualdade de gênero tenha ganhado força após o movimento MeToo, impulsionado pelas denúncias contra o produtor Harvey Weinstein, profissionais afirmam que o setor audiovisual continua reproduzindo desigualdades históricas.
Antes da vitória de Autumn, apenas três mulheres haviam sido indicadas ao Oscar de Melhor Fotografia. Rachel Morrison abriu esse caminho em 2018 com “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi”. Depois vieram Ari Wegner, por “Ataque dos Cães”, e Mandy Walker, por “Elvis”. Nenhuma delas havia conquistado a premiação.
No Brasil, a presença feminina em grandes produções de ficção permanece restrita. Entre os exemplos mais conhecidos estão Evgenia Alexandrova, responsável pela fotografia de “O Agente Secreto”, e Bárbara Alvarez, que assinou a imagem de “Que Horas Ela Volta?”.
Para Fernanda Riscali, diretora de fotografia e professora da ESPM, parte dessa realidade está ligada à visão de que cargos de liderança continuam sendo associados aos homens.
“O sexismo é um problema generalizado na área do cinema, mas existem alguns cargos mais problemáticos, como a direção de fotografia e a direção geral, por serem de comando. Há carreiras que são vistas como mais femininas, como direção de arte, figurino, maquiagem, porque tem essa divisão na sociedade, de que mulher gosta de decoração e não gosta de equipamentos.”
Segundo Marina Tedesco, professora da UFF e coordenadora do estudo, a dificuldade vai além da entrada no mercado.
“As mulheres fotografam um, às vezes dois filmes, e depois não conseguem permanecer fotografando. Temos um problema de ingresso e de permanência.”
Preconceito ainda acompanha o cotidiano dos sets
A rotina de trabalho também contribui para esse cenário. Jornadas de até 12 horas diárias, contratos temporários e a falta de transparência na remuneração dificultam a permanência de muitas profissionais, principalmente das que conciliam a carreira com a maternidade.
Além disso, diretoras de fotografia relatam que frequentemente precisam provar sua competência diante de equipes e produtores. Carol Quintanilha conta que ouviu justificativas relacionadas à força física para ser preterida em projetos de ficção.
“Diretores com quem trabalhei em documentários chamaram homens quando fizeram ficção. Perguntei e tive que ouvir: ‘É porque a câmera é muito pesada, e o cara que eu chamei malha’. Ou então: ‘Amo o seu olhar, mas fico incomodado de ver você carregando as coisas’.”
Lílis Soares afirma que o tratamento dado às mulheres ainda difere daquele destinado aos homens em posições equivalentes.
“Não tem lugar sem experiências violentas. A gente ouve muito: o diretor de fotografia é o ‘professor’, o ‘mestre’. A diretora de fotografia é ‘meu amor’. É alucinante, mas acontece não só no cinema. Nosso microcosmo reflete a sociedade.”
Na avaliação de profissionais do setor, movimentos organizados e iniciativas voltadas à diversidade têm ampliado a discussão sobre igualdade de gênero. Ainda assim, elas afirmam que a direção de fotografia continua sendo predominantemente masculina e que a ampliação das oportunidades depende de mudanças estruturais capazes de garantir acesso, permanência e reconhecimento para mulheres em todas as etapas da carreira.
Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/retrato-de-uma-videografa-com-uma-camera-de-video-filmando-um-filme-em-um-estudio-branco_380199261.htm



