O agronegócio brasileiro continua enfrentando um cenário de maior pressão financeira. Dados divulgados pela Serasa Experian revelam que a população rural acumulou R$ 54 bilhões em dívidas negativadas no quarto trimestre de 2025, resultado que evidencia os desafios enfrentados por produtores em meio a custos elevados, volatilidade nos preços agrícolas e condições de financiamento mais rigorosas.
O levantamento mostra que, embora as instituições financeiras não representem a maioria das novas negativações registradas no período, elas concentram praticamente todo o volume financeiro da inadimplência. Ao todo, 93,9% do valor das dívidas em atraso está vinculado ao sistema financeiro.
O movimento reforça uma preocupação que vem ganhando espaço entre bancos, cooperativas de crédito e investidores ligados ao setor agropecuário. Nos últimos anos, o aumento dos atrasos nos pagamentos e a piora das condições financeiras de parte dos produtores passaram a influenciar diretamente a gestão de risco das instituições que atuam no financiamento rural.
A combinação de juros elevados, redução de margens e oscilações nos mercados agrícolas tem dificultado a recuperação financeira de muitos empreendimentos rurais, especialmente após uma sequência de safras marcadas por desafios climáticos e econômicos.
Diversos agentes do setor financeiro, incluindo o sócio da RK Partners, Ricardo Knoepfelmacher, além de instituições bancárias, birôs de crédito e especialistas em renegociação de débitos, compartilham uma visão comum. Eles notam indicadores cada vez mais evidentes de uma crise iminente que ameaça desencadear um volume sem precedentes de falências empresariais no Brasil.
Indicadores mostram aumento dos atrasos
A taxa de inadimplência do agronegócio, calculada com base em débitos vencidos há mais de 180 dias, chegou a 8,2% no encerramento do quarto trimestre de 2025. O índice ficou um ponto percentual acima do registrado no mesmo período do ano anterior.
Apesar da alta, a Serasa Experian observa que o ritmo de crescimento perdeu força na comparação trimestral. Entre o terceiro e o quarto trimestre de 2025, o avanço foi de apenas 0,2 ponto percentual.
Para Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, o setor ainda opera em um ambiente desafiador.
“Apesar de sinais de estabilização em alguns segmentos, a inadimplência no agronegócio segue em alta gradual, com produtores ainda enfrentando margens apertadas e fluxo de caixa pressionado, diante de custos elevados, preços voláteis e crédito mais seletivo”, afirma Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, em nota.
Os dados indicam que a deterioração financeira alcança diferentes perfis de produtores. As maiores taxas de inadimplência aparecem entre a população sem registro rural, com 9,9%, e entre grandes proprietários rurais, que registraram índice de 9,8%.
Os produtores de médio porte apresentaram taxa de 8,3%, enquanto os pequenos produtores encerraram o período com inadimplência de 7,8%.
Recuperação judicial ganha espaço
As dificuldades financeiras também aparecem no aumento expressivo dos pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio.
Segundo a Serasa Experian, 853 produtores rurais pessoas físicas recorreram ao instrumento em 2025. O número representa crescimento de 51% em comparação com os 566 pedidos contabilizados em 2024.
Os estados de Mato Grosso, Goiás e Paraná lideram o ranking de solicitações. Juntos, concentram mais da metade dos processos registrados no país.
O avanço das recuperações judiciais reflete um contexto de maior pressão sobre o caixa das propriedades rurais. Em muitos casos, o mecanismo tem sido utilizado como alternativa para reorganizar dívidas e preservar a continuidade das atividades produtivas.
O crescimento dos pedidos também acompanha a redução do crédito disponível e o aumento da seletividade por parte dos agentes financeiros.
Bancos reduzem exposição e mudam estratégia
O ambiente de maior risco levou instituições financeiras a revisar critérios de concessão e ampliar a cautela na liberação de recursos.
De acordo com o levantamento, o número de novos contratos de crédito rural e agroindustrial registrou queda próxima de 4% em relação ao ano anterior.
Além da redução no volume de operações, houve retração significativa nos valores liberados. O ticket médio por CPF caiu 21% no período analisado, indicando menor disposição das instituições para assumir exposição financeira elevada.
Por outro lado, os produtores passaram a buscar operações com vencimentos mais longos. As linhas de crédito com prazo superior a dois anos cresceram 7,2%.
Em sentido contrário, os financiamentos de curto prazo, amplamente utilizados para custeio de safra, apresentaram queda de 19,5%.
“O perfil do crédito rural, marcado por tickets mais altos, prazos mais longos e maior exposição financeira, faz com que poucos inadimplentes concentrem montantes expressivos de dívida, ampliando o risco mesmo em um cenário de taxa relativamente controlada”, diz Pimenta.
Score de crédito aponta deterioração gradual
Outro dado acompanhado pela Serasa Experian é o Agro Score, indicador utilizado para medir a qualidade de crédito da população rural.
Em 2025, a pontuação média caiu para 600 pontos, resultado 16 pontos inferior ao observado um ano antes. A redução sugere enfraquecimento gradual da capacidade financeira de parte dos produtores.
Segundo a empresa, produtores que futuramente ingressam com pedidos de recuperação judicial costumam apresentar queda consistente no score até 18 meses antes da formalização do processo.
O levantamento também evidencia diferenças regionais. O Sul manteve os indicadores mais favoráveis, com taxa de inadimplência de 5,7% e os melhores níveis de avaliação de crédito do país.
Já a região denominada Norte Agro apresentou o cenário mais preocupante, com inadimplência de 12,9%. O percentual supera em mais de duas vezes o registrado no Sul e demonstra que os impactos da crise de crédito seguem ocorrendo de forma desigual entre as diferentes regiões produtoras do Brasil.
Fonte: Seu Dinheiro
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/angulo-alto-de-tres-pilhas-de-moedas-na-grama-com-terra-e-plantas_11764445.htm



