A vacinação tem conquistado espaço nas estratégias de prevenção cardiovascular. Tradicionalmente associada ao combate de doenças infecciosas, a imunização também pode contribuir para reduzir complicações que afetam o coração e os vasos sanguíneos. A relação ganhou destaque em 2025, quando a Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) publicou um documento de consenso propondo que a vacinação seja considerada o quarto pilar da prevenção cardiovascular.
A proposta complementa três frentes já consolidadas na medicina: o controle dos fatores de risco, as mudanças no estilo de vida e o tratamento medicamentoso. A iniciativa considera evidências de que determinadas infecções podem aumentar temporariamente a probabilidade de eventos cardiovasculares, sobretudo entre pessoas que já convivem com doenças cardíacas.
A prevenção de doenças cardiovasculares frequentemente só recebe a devida atenção após a manifestação de sintomas, achados alterados em exames ou a ocorrência de acidentes vasculares. Contudo, de acordo com o cardiologista, pesquisador e gestor do setor de saúde Dr. Hans Dohmann, essa abordagem necessita ser reformulada. Ele defende que a atenção à saúde do coração deve ser iniciada de forma precoce, muito antes do surgimento de quadros clínicos, por meio do monitoramento contínuo dos fatores de risco e do diagnóstico antecipado de alterações com potencial de evolução patológica.
Como as infecções afetam o coração
Durante uma infecção, o organismo ativa mecanismos inflamatórios para combater o agente causador da doença. Essa resposta pode provocar alterações na coagulação sanguínea, elevar a frequência cardíaca e aumentar a demanda de oxigênio pelo coração. Em determinadas circunstâncias, essas mudanças favorecem complicações cardiovasculares.
O risco merece atenção especial em pessoas com aterosclerose, condição caracterizada pelo acúmulo de placas nas artérias. A inflamação pode contribuir para a instabilidade dessas estruturas e favorecer a formação de coágulos, capazes de interromper o fluxo sanguíneo. Dependendo da região atingida, a consequência pode ser um infarto ou um acidente vascular cerebral (AVC).
Uma pesquisa publicada no New England Journal of Medicine identificou um risco de infarto aproximadamente seis vezes maior na primeira semana após a confirmação laboratorial de influenza. O resultado indica um aumento relativo e temporário do risco, não uma probabilidade individual de desenvolver o problema.
A COVID-19 também está associada a complicações cardiovasculares durante a fase aguda e depois da infecção. Já em pacientes com insuficiência cardíaca, doenças respiratórias podem desencadear descompensações clínicas e levar à necessidade de internação hospitalar.
Essas relações ajudam a explicar por que a prevenção de infecções passou a integrar as discussões sobre cuidados com o coração.
Vacinas que fazem parte da prevenção cardiovascular
A vacina contra influenza está entre as mais estudadas nesse campo. Além de reduzir o risco de gripe e de complicações relacionadas à doença, a imunização apresenta evidências de benefícios cardiovasculares, especialmente entre pacientes com doença coronariana.
O estudo IAMI, publicado na revista Circulation, avaliou pacientes vacinados contra influenza logo após um infarto ou durante uma internação por doença coronariana. Os participantes que receberam o imunizante apresentaram menor ocorrência de um desfecho combinado de morte, novo infarto e trombose de stent em comparação com aqueles que receberam placebo.
A vacinação contra a COVID-19 também integra as medidas preventivas, principalmente por reduzir o risco de formas graves da doença, hospitalizações e complicações associadas à infecção.
Outros imunizantes merecem atenção conforme o perfil clínico de cada pessoa. A vacina pneumocócica protege contra doenças causadas por determinadas bactérias do gênero Streptococcus pneumoniae, incluindo alguns tipos de pneumonia. A imunização contra o vírus sincicial respiratório (VSR), por sua vez, ganhou relevância com a disponibilização de vacinas para grupos específicos, especialmente idosos e pessoas com fatores de risco.
É necessário, porém, distinguir os níveis de evidência disponíveis. O benefício cardiovascular direto da vacinação é mais bem estudado no caso da influenza. Para outros imunizantes, parte da proteção esperada decorre da prevenção de infecções graves que podem agravar doenças cardíacas preexistentes.
As indicações devem considerar idade, condições clínicas e recomendações atualizadas do Programa Nacional de Imunizações e das sociedades médicas.
Avaliação médica deve incluir o histórico vacinal
O acompanhamento cardiovascular envolve diferentes fatores. Controle do colesterol, tratamento da hipertensão, manejo do diabetes e uso adequado de medicamentos continuam entre as principais medidas para reduzir o risco de infarto e AVC. Alimentação equilibrada e atividade física também fazem parte dessa estratégia.
A avaliação pode incluir outros aspectos, como obesidade, doença renal crônica, qualidade do sono e histórico de infecções. Nesse contexto, verificar a situação vacinal ajuda a identificar oportunidades de prevenção, sobretudo entre pessoas com doença coronariana, insuficiência cardíaca ou condições que aumentam a possibilidade de complicações.
A inclusão das vacinas no cuidado cardiológico não substitui medicamentos, exames ou mudanças de hábitos. A proposta é ampliar a proteção por meio de medidas complementares, definidas de acordo com as necessidades de cada paciente.
Imunização como medida complementar de proteção
A vacinação não elimina a possibilidade de infarto ou AVC. Entretanto, ao reduzir o risco de determinadas infecções e suas complicações, pode contribuir para a proteção cardiovascular, especialmente em grupos vulneráveis.
Para a cardiologista Dra. Ana Paula Garcia, a discussão reforça a importância de avaliar a saúde de maneira integrada. A prevenção não deve se limitar aos indicadores tradicionais, como pressão arterial e colesterol, mas considerar também fatores que podem desencadear eventos agudos.
A situação vacinal, portanto, merece espaço nas consultas e no planejamento dos cuidados preventivos. Verificar quais imunizantes são indicados para cada faixa etária e condição clínica é uma medida que pode complementar outras intervenções já estabelecidas.
A relação entre infecções e doenças cardiovasculares mostra que o coração não deve ser avaliado isoladamente. A prevenção também passa por reduzir as agressões provocadas por outras doenças, com orientação médica e atenção às recomendações de imunização.
Fonte: CNN Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/enfermeira-na-clinica-praticando-medicina_33757797.htm



