A pandemia de Covid-19 acelerou mudanças que já estavam em curso na saúde. Ferramentas como telemedicina, monitoramento remoto e compartilhamento de informações clínicas, antes adotadas de forma limitada, passaram a fazer parte da rotina de hospitais e profissionais.
Para o médico Hans Dohmann, mestre em Cardiologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), essa transformação não representa apenas uma modernização tecnológica, mas uma mudança na forma de cuidar das pessoas.
Diretor médico da Stone e responsável pelo Hospital Virtual Verde, Hans Dohmann defende o conceito de “hospital sem paredes”, modelo em que a assistência deixa de estar restrita ao ambiente físico e passa a acompanhar o paciente onde ele estiver. A proposta combina telemedicina, acompanhamento contínuo, compartilhamento seguro de dados e atendimento domiciliar, permitindo que boa parte do cuidado aconteça fora das unidades hospitalares.
“O hospital do futuro deverá ser uma rede de ativos de entrega física e virtual conectada por um único sistema com recursos digitais, permitindo a prestação de atendimento em comunidades, em casa, empresas ou em estabelecimentos, de acordo com a necessidade dos médicos e a preferência dos pacientes”, descreveu Hans Dohmann.
Na avaliação do médico, essa integração favorece uma medicina mais preventiva e personalizada, permitindo identificar alterações no estado de saúde antes que elas evoluam para situações de maior gravidade.
Hospital além da estrutura física
Hans Dohmann aponta que o conceito de hospital sem paredes também está associado à reorganização da infraestrutura hospitalar. “A experiência vivida durante a pandemia mostrou que os hospitais precisaram adaptar rapidamente seus espaços para responder ao aumento da demanda. Quartos foram convertidos em unidades de terapia intensiva, enfermarias ganharam novas funções e áreas de espera passaram a receber pacientes em observação”.
Segundo o médico, esse cenário reforçou a importância de projetos arquitetônicos mais flexíveis, capazes de adaptar diferentes ambientes conforme a necessidade assistencial. Em vez de estruturas rígidas, os hospitais passam a ser concebidos para acomodar mudanças operacionais com rapidez, sem comprometer a qualidade do atendimento.
“Ao mesmo tempo, a tecnologia amplia a capacidade de acompanhamento dos pacientes. Informações como idade, histórico clínico, exames, sinais vitais e evolução dos tratamentos podem ser reunidas em plataformas digitais para auxiliar médicos na tomada de decisão. Ferramentas de inteligência artificial também passam a contribuir nesse processo, sempre como apoio ao julgamento clínico, sem substituir a atuação do profissional”, reforça Hans Dohmann.
Experiências internacionais mostram resultados
A adoção desse modelo já apresenta resultados em diferentes países. No Reino Unido, o programa Hospital at Home, implantado pelo Hertfordshire Community NHS Trust em maio de 2020, expandiu o atendimento domiciliar para pacientes que antes permaneceriam internados.
“Nos últimos anos o serviço inclui monitoramento remoto, acompanhamento de sinais vitais, administração de antibióticos intravenosos e orais, tratamento de infecções urinárias, assistência a pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), realização de eletrocardiogramas e cuidados paliativos especializados”, detalhou Hans Dohmann.
Os números também demonstram o crescimento da iniciativa. Dados do NHS Digital apontam que 8.586 pacientes receberam atendimento no modelo Hospital at Home em dezembro de 2023, frente a 7.886 no mês anterior. A estratégia de expansão dos chamados leitos virtuais permitiu que a meta estabelecida pelo NHS England para 2024 fosse alcançada antes do previsto.
Saúde digital ganha espaço no Brasil
No Brasil, o interesse da população acompanha essa tendência. Pesquisa divulgada pelo Serviço Social da Indústria (SESI), em 2025, mostrou que 78% dos brasileiros demonstram interesse em utilizar serviços de saúde digital. Entre aqueles que já utilizam essas ferramentas, 81% avaliam positivamente a experiência.
O levantamento também indica que a adoção ainda possui espaço para crescer. Apenas 20% dos brasileiros utilizaram algum serviço de saúde digital em 2025, enquanto 26% afirmam conhecer essas soluções. O celular aparece como principal meio de acesso, presente em 96% dos atendimentos, seguido por telefone ou WhatsApp, aplicativos de planos de saúde e pela plataforma Conecte SUS.
Para Hans Dohmann, esses indicadores reforçam que a transformação digital da saúde depende não apenas da disponibilidade de tecnologia, mas também da ampliação do conhecimento da população sobre seus benefícios.
Imagem: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/chamada-de-video-para-laptop-e-consulta-medica-do-escritorio-com-especialista-on-line-para-aconselhamento-ajuda-e-estrategia-feliz-e-animada-mulher-negra-e-cirurgia-de-saude-em-reuniao-on-line-para-planejamento-de-cirurgia_40220718.htm



